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03 dezembro, 2019
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só 9? pq n mataram todos?
parabéns PM
parabéns governador
esses esquerdistas vivem criminalizando a PM
em baile funk só tem santinho né?
tem que acabar mesmo c essa bandalheira de funk
baile funk, antro de pecado, bandidos drogas prostituição
a PM tá cumprindo seu dever
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28 novembro, 2019
Sujeito do Poder
Da série "Capitalismo em agonia"
Este ensaio é a conclusão e a tentativa de sistematização das ideias que desenvolvi em outros quatro ensaios: "O capital é masculino"; "Liberais, conservadores, progressistas e ativistas"; "Socialistas"; e "Fascistas". Por isso, o melhor é que a leitura do presente texto seja feita por último.
Quando comecei a escrever esses ensaios, motivado por questões de gênero no capitalismo, pela emergência do fascismo e o pelo colapso da política atual, eu não fazia ideia de que chegaria ao conceito de “sujeito do poder”, mesmo porque foram escritos numa linguagem despojada, não muito preocupada com a precisão conceitual. Essa despreocupação com o rigor teórico tem dois motivos: o primeiro é que o objetivo desses textos era muito mais exploratório do que sistematizador; e, depois, por eu não ser um intelectual, filósofo ou cientista social que realiza uma pesquisa em seu campo de atuação, mas um livre pensador preocupado com os desenvolvimentos atuais do capitalismo e seu possível colapso.
Como a finalidade do atual ensaio é sistematizar as ideias que explorei anteriormente, ele é mais rigoroso conceitualmente, mas somente até o ponto em que um livre pensador não especializado como eu o consegue. Certamente os leitores mais exigentes encontrarão várias contradições e arestas teóricas não aparadas. Espero que, apesar disso, possa colaborar para compreensão do problema da forma sujeito e do sujeito do poder, ou seja, de como o capital se encarna nos indivíduos como subjetividade e os instrumentaliza para sua reprodução.
Por fim, neste ensaio e nos que o precedem, permeia o diálogo com o "quase marxismo" (ou o "Marx e para além de Marx") da Crítica do Valor e de Moishe Postone. Muitos marxistas questionam se a abordagem que esses autores fazem da obra de Marx (particularmente do papel do trabalho e da luta de classes para a emancipação, que eles consideram secundário) é mesmo condizente com sua teoria e não uma leitura enviesada. Não me considero apto para entrar nessa discussão, mas me parece que a perspectiva teórica da Crítica do Valor, independente de ser coerente ou não com as ideias de Marx, é a que melhor compreende o capitalismo e suas crises nos dias atuais.
O sujeito como invenção moderna
Como observa Norbert Trenkle no artigo “A contradição entre o indivíduo e a sociedade como o núcleo da teoria sócio-crítica” (traduzido com o Google Tradutor), a forma sujeito não é universal, mas surge na Idade Moderna como forma de socialização burguesa. É, portanto, historicamente situada. Um aspecto fundamental da forma sujeito, de acordo com Trenkle, é o isolamento do sujeito nas relações sociais, que são marcadas pela indiferença em relação aos outros, vistos como objetos de interesse. Esta cisão entre sujeito e objeto que caracteriza a forma sujeito já aparece no início da Idade Moderna em filósofos como Descartes e é, portanto, anterior à consolidação do próprio capitalismo.
Em “Tempo, trabalho e dominação abstrata” , Moishe Postone observa que o tempo abstrato, medido de forma exata e universal pelo relógio, surgiu ainda na Idade Média e foi pré-condição para o surgimento do capitalismo, pois as categorias valor, trabalho e mercadoria se constituem a partir do tempo (medido pelo relógio) de trabalho necessário para a produção de uma unidade de produto.
Embora Norbert Trenkle não o diga em seu ensaio, o mesmo parece ocorrer com a forma sujeito, que surge antes do capitalismo, mas parece ser fundamental para sua consolidação como sistema. Afinal de contas, o capital, embora seja uma grandeza abstrata, se reproduz por intermédio das pessoas em situação de trabalho. É necessário, portanto, que os indivíduos estejam simbolicamente aptos, ou seja, socialmente formados, para a reprodução do capital.
O sujeito é a forma social necessária para que o capital possa se reproduzir, especialmente o que chamarei de sujeito do poder, que se organiza como uma estrutura centrada em permanente tensão. Na periferia dessa estrutura orbitam vários sujeitos, mas seu núcleo é constituído pelo que Marx chamou de sujeito automático e que pode também ser nomeado, de acordo com o aspecto que se queira ressaltar, como sujeito trabalhador (do trabalho), sujeito consumidor (da mercadoria) ou sujeito monetário (dos negócios).
As várias esferas subjetivas
O sujeito do poder é uma esfera de subjetividade que compõe a forma sujeito que, por sua vez, se trata de uma forma social básica da modernidade, que constitui a identidade do indivíduo moderno e estabelece as condições de suas relações com outros indivíduos, consigo mesmo, com as instituições sociais e com a natureza.
A forma sujeito, no capitalismo, é fragmentada em várias subformações, de acordo com esfera de vida em que o indivíduo interage. Estas subformações da forma sujeito, ou pelo menos sua tendência a se fragmentar, certamente é anterior ao estabelecimento do capitalismo, remontando possivelmente ao início da era moderna e constituindo, portanto, uma qualidade intrínseca à forma sujeito. Trenkle afirma que uma característica da forma sujeito é a cisão sujeito-objeto na relação do indivíduo com os outros, com a sociedade, com a natureza e até consigo mesmo. A fragmentação da forma sujeito possibilita esta objetificação do mundo exterior e interior, ao possibilitar que o sujeito suspenda, em determinadas situações, sua empatia pelo outro, seja ele uma pessoa, um grupo social, a natureza ou sua própria subjetividade. As relações que envolvem algum tipo de vínculo afetivo são restritas aos sujeitos da arte, da espiritualidade e, principalmente, da intimidade; enquanto os sujeitos do poder, do direito e da ciência são imunes às ligações do afeto, possibilitando a objetificação.
Em todo caso, a fragmentação da forma sujeito é necessária ao capital, pois ao sujeito automático é exigido a suspensão das outras esferas subjetivas (íntimas, estéticas, espirituais etc) no trabalho e nos negócios, possibilitando que os outros e a própria pessoa sejam objetificados (coisificados) como mercadoria e que, as relações pessoais que ocorrem no mercado se tornem relações de troca, abstratas e racionais, de acordo com a lógica da mercadoria. Esta capacidade individual para se separar das demais esferas subjetivas que poderiam atrapalhar a reprodução do capital é chamada hoje, elogiosamente, de profissionalismo.
Além do sujeito de poder, há vários outros que compõem a forma sujeito, como o sujeito do direito, que costuma intermediar quase todas as relações sociais; o sujeito do saber, da filosofia, das ciências humanas e exatas, mas também da técnica; o sujeito da intimidade, das relações familiares, consigo mesmo e com os amigos; o sujeito da espiritualidade, que absorve secundariamente na forma sujeito a religiosidade, que na Idade Média era central na constituição individual.
No artigo de Norbert Trenkle (citado acima), ele argumenta que a forma sujeito não pode ser derivada da forma valor, por ser historicamente anterior à consolidação do capitalismo, embora a subjetividade seja necessária para a constituição do sistema capitalista. Mas, assim como a moeda e o estado, também essenciais para o capital, a forma sujeito certamente sofre modificações decisivas em sua constituição e função com a emergência do capitalismo nos fins do século XVIII.
Pode-se mesmo especular que na modernidade pré-capitalista, marcada pelos estados absolutistas e o mercantilismo, a forma sujeito compete ainda com a formas sociais medievais na constituição e na conduta dos indivíduos e instituições, e que sua consolidação como forma social acabada, mas também dominante, ocorre apenas com a consolidação do capitalismo numa determinada sociedade, na qual ele adquire o monopólio de constituir a identidade individual.
Este acabamento/realização da forma sujeito, bem como sua reestruturação operada pelo capitalismo, em que o sujeito moderno emerge como forma social dominante na estruturação da identidade do indivíduo e suas relações sociais, se dá somente com a emergência do sujeito do poder, cujo núcleo é o sujeito automático do liberalismo. Em torno deste núcleo, que é o próprio capital subjetivado, giram, numa órbita próxima, o sujeito reacionário do conservadorismo, o sujeito cidadão do progressismo e o sujeito identitário do ativismo; e numa órbita mais distante e disfuncional, o sujeito revolucionário do socialismo real e o sujeito paranóico do fascismo.
O sujeito do poder emerge com a consolidação do capitalismo e seu surgimento reestrutura a forma sujeito da modernidade, subordinando os demais sujeitos (do saber, da intimidade, do direito, da espiritualidade, da arte) ao sujeito do poder, em cujo núcleo, por sua vez, encontra-se o sujeito automático, que é o próprio capital subjetivado. Por outras palavras, a centralidade do sujeito do poder na teia subjetiva da modernidade, implica na centralidade do sujeito automático/capital, que se torna o Ser imóvel da estrutura que chamamos de forma sujeito:

Mesmo as relações sociais mais íntimas, como o amor e a amizade, passam a ser reguladas indiretamente pelo sujeito do poder, pois a regra de tais relações é ocorrerem dentro de uma mesma classe social, onde as subjetividades podem se reconhecer mais facilmente como almas afins, portadoras de gostos, opiniões, valores e visão de mundo semelhantes e, portanto, afetivamente compartilháveis, condição importante para o estabelecimento de relações íntimas.
Ora, o pertencimento a uma determinada classe social está primariamente vinculado aos desenvolvimentos do sujeito do poder, em seu aspecto econômico, mas também político. É o sujeito automático, bem ou mal performado pelos indivíduos e grupos sociais, que determinará os perdedores e vencedores da disputa capitalista e são os sujeitos cidadão, reacionário e ativista que irão agir sobre as almas vitoriosas e derrotadas, estabelecendo as formações de de classe social no capitalismo como grandes massas subjetivas, delimitadas pela renda e riqueza, mas também por valores, gostos, hábitos e visões de mundo específicos - aquilo que Jessé Souza costuma denominar de capital cultural.
Ao delimitarmos assim a subjetividade moderna como forma sujeito surgida na aurora da modernidade e consolidada com o capitalismo, há pouco mais de 250 anos, boa parte da pretensa universalidade da filosofia e psicologia modernas, e não só quando tratam do indivíduo, caem por terra, na medida em que pressupõem, implícita ou explicitamente, uma subjetividade ontológica (um Ser) constitutivo do humano. A psicanálise freudiana, por exemplo, seria aplicável apenas à forma sujeito moderna e não à psique humana de todas as épocas. E mesmo assim, sua aplicação mais efetiva se daria em relação ao sujeito da intimidade e suas relações afetivas com a família, o par romântico e os amigos.
Freud, equivocadamente, universaliza e coloca o sujeito íntimo individual no centro da subjetividade moderna, relegando o sujeito do poder (e o capital) a um segundo plano hierárquico. Na economia psíquica freudiana, o sujeito do poder se torna, junto com as coerções sociais, uma instância da psique, o superego, que não é historicizado e circunscrito ao capitalismo, mas estendido imprudentemente e sem bases factuais a todas as formações culturais da humanidade. Para Freud, a estruturação da psique individual em id, ego e superego, bem como a neurose e o Complexo de Édipo são universais e, portanto, independem da formação social em que o indivíduo está inserido. Antropólogos e historiadores contestam, com base em suas pesquisas empíricas, estas certezas ontológicas da psicanálise a respeito da constituição universal da psique humana.
Por fim, a ideia de que a forma sujeito é historicamente delimitada, bem como as demais ideias da crítica do valor, como a historicidade do valor, do trabalho e da mercadoria, é uma interpretação das ideias de Marx que o aproxima das premissas da antropologia, que em suas vertentes não estruturalistas não reconhece a existência de universais ontológicos por trás das diversas formações culturais ao longo da história humana. As ciências humanas e a filosofia, à esquerda e à direita, costumam projetar categorias e instituições modernas, como trabalho, sujeito, economia, política, mercado etc, em formações sociais muito distintas da modernidade capitalista e pré-capitalista, ontologizando tais categorias e se esquecendo elas são formadas historicamente a partir de desenvolvimentos sociais muito específicos.
O sujeito do poder
Com o advento do capitalismo, o sujeito do poder se torna o centro da teia subjetiva da modernidade, passando a predominar sobre os demais. Mas o próprio sujeito do poder se subdivide em vários outros sujeitos sendo que o principal deles é o sujeito automático, que é o próprio capital subjetivado, reorganizando os afetos, a racionalidade e orientando a ação do indivíduo para que ele se adeque da forma mais eficiente possível à lógica da mercadoria, tornando-se um mecanismo (autômato) perfeito de reprodução do capital, Daí a felicidade da escolha do adjetivo “automático” por parte de Marx.
O sujeito automático, como núcleo do sujeito do poder, corresponde imediatamente a uma força política no capitalismo, o liberalismo, cuja característica principal é defender no espaço da coletividade as ideias que representam diretamente os interesses de reprodução do capital. Tais ideias propagadas pelos liberais (e neoliberais) não dizem respeito apenas à esfera econômica, mas também à dos costumes e da política propriamente dita, como a defesa da igualdade de gênero e da democracia representativa. Vimos, por exemplo, que as reivindicações a respeito da igualdade de gênero, mais que uma ideia que interessa ao capital, só foi possível graças à abstração do masculino que o sujeito automático promove, possibilitando que o “corpo abstrato” do sujeito automático possa ser preenchido igualmente por homens ou mulheres concretas, desde que se mostrem eficientes como autômatos do capital.
Outros sujeitos do poder surgem, então, como reação aos desequilíbrios que o sujeito automático e o liberalismo provocam, tanto nos indivíduos quanto na sociedade. Estes desequilíbrios, resultantes das políticas liberais, são basicamente a concentração e centralização do capital, que se expressa como concentração de renda e riqueza e massificação da pobreza e da miséria; e a tendência abstratizante e universalizante do capital e da forma sujeito, que transformam o ser humano numa máquina de trabalho e consumo com a finalidade maior de reprodução do capital, relegando a concretude das relações humanas ao segundo plano e, consequentemente, negando às pessoas a vivência plena de sua própria humanidade.
Três outros sujeitos do poder surgem, então, para contrabalancear os excessos do sujeito automático. O primeiro é o sujeito reacionário do conservadorismo que, em geral, não contesta as ideias econômicas do sujeito automático e suas consequências, como a concentração de renda. Sua função principal é questionar as abstrações do sujeito automático e buscar um resgate da concretude humana, tendo como modelo a afirmação da superioridade do homem sobre a mulher das antigas sociedades patriarcais, como já foi visto em detalhes.
O segundo sujeito do poder é o sujeito cidadão do progressismo (ou das esquerdas), cuja função é democratizar o capital, defendendo uma repartição mais justa da renda e riqueza do capitalismo, promovendo, no plano da circulação do capital, uma solidariedade abstrata, exercida pelo estado, que se converte numa espécie de mãe piedosa (porém abstrata, burocratizada) dos pobres e miseráveis, perdedores da encarniçada guerra de mercado.
O sujeito do poder se completa, por fim, com o sujeito identitário do ativismo, cujas origens remontam às primeiras lutas feministas pelos direitos políticos e ao trabalho, assim como às lutas abolicionistas americanas. A função do sujeito identitário é simétrica à do sujeito reacionário pois, como este último, ele reivindica uma vivência concreta de sua humanidade, se atendo a questões identitárias de minorias concretas, definidas pelo gênero, orientação sexual, etnia, religiosidade, etc. Os ativistas propõem um resgate da concretude humana que afirme as diferenças entre os diversos grupos sociais, como os conservadores, mas, ao contrário destes, defendem a abolição da hierarquia entre os grupos.
Na utopia ativista, numa verdadeira democracia não haveria mais uma maioria (homem branco ocidental) dominando as várias minorias (não homem, não branco, não ocidental) e sim um mundo múltiplo em que as diferenças concretas se afirmam sem se imporem umas sobre as outras. Em relação aos aspectos econômicos, os ativistas pendem, ora à direita liberal, da qual eles puderam emergir como força política, ora à esquerda progressista que costuma absorver as demandas identitárias em suas políticas igualitárias.
Sujeito do poder, política e progressismo
A emergência do sujeito do poder é concomitante com o estabelecimento de uma esfera pública que chamamos de política, cujas regras e conteúdos foram delineadas no iluminismo e efetivadas a partir da Inglaterra, França e EUA entre fins do século XVIII e início do XIX. A política, como campo de tensão entre conservadores, liberais e progressistas e como meio de acomodação da luta de classes capitalista, não existe antes do estabelecimento do capitalismo. A evocação de uma política ontológica ou que remonte, pelo menos, à Grécia Antiga e o governo da pólis, é mais um engano intelectual que quer universalizar uma formação social circunscrita à modernidade capitalista.
Há, no capitalismo, uma obsessão pela política, principalmente no campo progressista, que se nutre da ilusão de que a tendência moderna de politização de todas as tensões sociais pode levar a reformas saneadoras do sistema capitalista ou até à sua superação. Ora, a política e seu sujeito do poder, assim como o direito e seu respectivo sujeito, são esferas públicas engendradas a partir do liberalismo e do iluminismo com a finalidade de possibilitar a reprodução do capital e não de humanizá-lo ou superá-lo. As lutas da esquerda, representando o trabalho conta o capital, embora acarrete, por vezes, disputas acirradas e até “rupturas democráticas”, são previstas e necessárias à acomodação estrutural do capitalismo.
Da mesma forma, a suposta humanização do capital promovida por políticas progressistas de distribuição de renda e valorização do trabalho, possibilitada por intensas lutas políticas, acaba por se revelar como concessões do capital ao trabalho em tempos de crescimento econômico, em nome da paz social, mas também da democratização do capital, possibilitando um aumento da demanda por meio do aumento real dos salários que, em termos marxistas, significa uma apropriação maior da mais valia por parte do trabalho. Em termos econômicos, o aumento da demanda permite o prolongamento do ciclo de crescimento até a próxima crise, e da perspectiva da política, diminui as tensões da luta de classes. No plano da subjetividade, o efeito da distribuição de renda progressista é completar o desenvolvimento do sujeito do poder na maior parte dos indivíduos da sociedade. O resultado é a formação de uma imensa classe média, cujos indivíduos se caracterizam pela consolidação do sujeito automático como centro da subjetividade.
Essa consolidação do sujeito automático que caracteriza o “homem de classe média” implica no desenvolvimento pleno de suas três facetas, como sujeito do trabalho, que ressalta o aspecto da produção do valor; como sujeito do consumo ou da mercadoria, que realiza o capital no momento de sua circulação; e como sujeito monetário ou do valor, cujo foco é a acumulação e a propriedade do capital que, no caso das classes médias pode ser um “capital cultural” ou “técnico” que, na verdade, é uma potência de capital que pode ou não ser realizada. Em todo caso, a “humanização” do capitalismo promovida pelas políticas distributivistas resulta, no plano subjetivo, na consolidação do sujeito automático como núcleo psíquico e, em consequência, num reforço da sujeito do poder universal, abstrato e vazio de sentido, e na primazia da racionalidade instrumental e da competitividade em desfavor de outras dimensões afetivas e racionais da alma humana.
O resultado imediato dessa democratização do capital por meio do alargamento das classes médias é uma relativa paz social, própria dos períodos de prosperidade econômica. Mas enquanto na superfície social e psíquica reina a felicidade capitalista do trabalho e do consumo abundantes, as frustrações provocadas pela redução da alma às abstrações vazias do capital e pela centralidade sufocante do sujeito automático, que se define pelo predomínio da racionalidade instrumental e da competitividade, se acumulam no inconsciente como conteúdos reprimidos que, em momentos de crise grave do capitalismo, poderão irromper como subjetividade fascista, na forma de sujeito paranoico. Paradoxalmente, as políticas progressistas de humanização do capital, acabam por consolidá-lo a nível subjetivo, promovendo a desumanização do humano e reforçando o processo de recalque das frustrações.
A emergência do fascismo e do fundamentalismo religioso é uma revolta inconsciente contra as coerções da racionalidade instrumental e da competitividade capitalista, que se exprime, na esfera do sujeito do poder, como a irrupção de um irracionalismo cego e extremamente destrutivo, mobilizado pelos afetos do medo, ódio e ressentimento. Uma vez no poder, o projeto político do sujeito paranoico do fascismo e do fundamentalismo é o da destruição pela destruição, marcado pela eleição de inimigos externos e internos e pelo uso das forças repressivas do estado (exército e polícia) para promoção da morte e da violência (necropolítica).
Mesmo quando a política é exercida pela sujeito do poder em sua versão mais solidária, o sujeito cidadão do progressismo, ela não é capaz de humanizar ou superar o capitalismo. Por isso, a emancipação do sistema deve significar tanto a abolição do sujeito do poder quanto da política, sua esfera social de atuação. Assim como não será pelo trabalho que se poderá superar o capitalismo como sistema de produção, também não o será pela política democrática que ele será superado como sistema de poder. Da mesma forma, não será o aperfeiçoamento do sujeito do poder e da forma sujeito que resultará em subjetividades emancipadas. Economia, política e sujeito moderno não são formações universais que sobreviveriam à uma superação do capitalismo. Elas não existiam antes e provavelmente não existirão numa sociedade pós-capitalista.
O sujeito do poder é econômico
A forma sujeito não comporta um sujeito da economia separado do sujeito do poder. Na verdade, o núcleo do sujeito do poder, o sujeito automático, é essencialmente econômico, pois a racionalidade instrumental e a competitividade, seus atributos fundamentais, tem como finalidade última a reprodução do capital.
O que caracteriza a forma sujeito em sua feição capitalista é o predomínio do sujeito do poder sobre os demais, tais como o sujeito do direito, o sujeito da intimidade, o sujeito da ciência e o sujeito da arte. Com a consolidação do capitalismo, estes sujeitos passam a ser condicionados, direta ou indiretamente, pelo sujeito do poder, passando a atuar em função desse condicionamento, mesmo quando o questionam. O sujeito do poder, por sua vez, tem em seu núcleo o sujeito automático do capital, o que significa que tanto a psique (forma sujeito interiorizada) quanto a política (forma sujeito socializada) são pré-formadas, direta ou indiretamente, pela economia, ou seja, pelo capital, encarnado no indivíduo como sujeito automático.
O fato de não haver um sujeito da economia em separado não implica num enfraquecimento dos aspectos econômicos na sociedade capitalista, mas sim na sua hegemonia, a ponto de se poder falar na subsunção do político no econômico. A tradicional oposição entre política e economia na sociedade capitalista é uma meia verdade que resulta das tensões internas ao sujeito do poder, cujos elementos constituintes, o sujeito automático, no núcleo, e os sujeitos reacionário, cidadão e identitário, que orbitam à sua volta, encontram-se num estado de tensão permanente.
Tais disputas políticas, no entanto, jamais criticam a centralidade da produção de valor e reprodução do capital. A racionalidade instrumental e a competitividade nunca são postas em questão enquanto características intrínsecas do sujeito automático, seja em sua performance como sujeito trabalhador, no processo de produção, como sujeito consumidor no ato da troca, ou como sujeito monetário que acumula capital e se coloca “no mercado” (e se vê) como capital humano.
As tensões entre as subjetividades no interior do sujeito do poder dizem respeito às consequências negativas para os seres humanos das ações do sujeito automático no cumprimento de seu objetivo primário, que é a reprodução do capital. Tais consequências são principalmente a desumanização do humano e a crescente desigualdade social. A esfera política no capitalismo tem, portanto, a função de promover a negociação entre as pessoas em torno das ações necessárias em face das inevitáveis consequências do desenvolvimento econômico do capital que, tal como uma segunda natureza, possui leis irrevogáveis e se coloca à margem da vontade humana. Ou seja, do ponto de vista estrutural, a economia, isto é, o sujeito automático, é o centro imóvel da estrutura que chamamos de sujeito do poder e, em consequência, de toda a forma sujeito. O que corresponde, no plano social, à centralidade da esfera econômica (do capital, com sua lógica e suas leis) no sistema capitalista.
Na modernidade é usual se exigir a separação, no ambiente de trabalho ou dos negócios, entre a ação racional e competitiva de trabalhar ou negociar e as demais ações, afetos e posições humanas de outras esferas, que dizem respeito a opiniões políticas, sentimentos íntimos ou pertencimentos a certos grupos sociais étnicos, religiosos, de gênero etc. Esta separação é exigida ao indivíduo e, se bem cumprida, indica que ele performa bem (encarna) o sujeito automático, o que costuma chamado, elogiosamente, de profissionalismo.
A exigência da separação entre o sujeito automático e as demais subjetividades pode dar a impressão de que há de fato um sujeito da economia em separado. E mais, que os outros sujeitos (do poder, da intimidade, da arte, da espiritualidade etc) são independentes dele. Afinal, um dos pilares da visão de mundo liberal é que, fora do trabalho ou dos negócios, o indivíduo é livre para ser o que quiser. O fato é que a exigência da suspensão das demais subjetividades no ato do trabalho ou dos negócios, significa exatamente que o sujeito automático, ou seja, o capital, é o centro imóvel tanto da psique quanto da sociedade. Os atos da produção e da troca, bem como as relações sociais em que eles se dão, o consumo, a negociação e principalmente o trabalho, são fundamentais na sociedade capitalista. É a partir destas relações sociais que se definirão as classes e as subjetividades, inclusive o sujeito da intimidade que, num primeiro momento, pode parecer distante dos condicionamentos sociais, mas quando examinado com mais atenção, encontra-se umbilicalmente vinculado ao seu contexto social, principalmente de classe.
A exigência para o indivíduo performar, no ato do trabalho ou dos negócios, apenas o sujeito automático, não deixando que os outros sujeitos interfiram na reprodução do capital, funciona como uma palavra de ordem que reafirma a centralidade intocável e inamovível da lógica da mercadoria que, no momento em que agencia o indivíduo como sujeito automático, suspende ou subsume na racionalidade instrumental e na competitividade todos os demais aspectos (racionais, políticos, afetivos, estéticos, espirituais etc) da alma humana. A liberdade das outras esferas subjetivas do indivíduo, para “ser o que quiser” passa, antes, por essa obrigação de ser, em primeiro lugar sujeito automático. Obrigação que advém da necessidade de sobrevivência, mas que é também moral e portanto incorporada como virtude pelo indivíduo, que vê o trabalho como dever virtuoso e o consumo como gozo merecido de uma vida reta.
O “ser o que quiser” liberal é, na realidade, o “ser o que se pode” ou “ser o que se sobra” após as coerções e condicionamentos impostos pelo sujeito automático que, por conta de sua centralidade, efetivamente pré-forma com a lógica da mercadoria todo o universo psíquico do sujeito do poder e, mais amplamente, da forma sujeito. O que significa que o sujeito automático pré-forma também as relações sociais da esfera política onde atua o sujeito do poder, bem como das demais esferas sociais, correspondentes a cada subjetividade da forma sujeito: arte, intimidade, espiritualidade, ciência, direito...
Em suma, o sujeito automático, como núcleo do sujeito do poder não é político, mas econômico, o que significa que, como afirmava Marx, o poder no capitalismo é exercido, em última instância, pelo capital, que agencia o (se encarna no) indivíduo como sujeito automático. O adjetivo automático é duplamente feliz. Em primeiro lugar ele desfaz a ilusão do livre arbítrio, seja em sua versão cristã, que supõe a autonomia moral do homem, seja em sua versão iluminista, que deposita suas esperanças nas potências libertadoras da racionalidade humana. O que se verificou foi justamente uma captura das faculdades racionais pelo capital, tornando-as instrumento de sua reprodução. O sujeito é automático, portanto, no sentido em que se torna um autômato do capital, cujas ações, pensamentos e até mesmo afetos são condicionados pela lógica da mercadoria. O ser humano, no capitalismo, se torna um Ser do capital, ou melhor, um Ser uno com o Ser do Capital.
Em segundo lugar, o adjetivo automático é um atributo do próprio capital, no sentido que o seu Ser é inconsciente, cego a si mesmo e aos outros que ele agencia para sua reprodução: humanos, técnica e natureza. Ou seja, a existência e o desenvolvimento do capital como Ser abstrato, mas objetivo (real), embora tenha uma lógica (da mercadoria), uma finalidade (acumulação infinita) e uma direção (expandir-se como presença imanente e onipotente por todo o globo), é desprovido de qualquer consciência, agindo como um autômato de si mesmo, num processo muito parecido com o do vírus e outras pragas contagiosas, com a diferença que sua “infecção” não atinge o corpo biológico, mas os corpos psíquico e social.
Os seres humanos, ao se sujeitarem ao sujeito do poder, cujo núcleo é o sujeito automático, aliena suas potências e se deixa governar, no plano individual e coletivo, pelo capital, Ser econômico, abstrato, cego e sedento por se expandir infinitamente, às custas da vida humana e da natureza.
A forma sujeito como estrutura centrada
A forma sujeito no capitalismo é uma estrutura duplamente centrada. É provável que no alvorecer da Idade Moderna, ela não se organizasse ainda de modo estrutural, que supõe uma relação tensa e necessária entre seus vários sujeitos, sob a coordenação de uma subjetividade central. O sujeito da ciência, da arte, do direito e da economia encontravam-se em estágios iniciais e a burguesia mercantil, embora próspera, necessitava negociar o poder político com a nobreza e o clero, ainda muito fortes e que preservavam a cultura e as formas sociais medievais. Estas agenciavam o indivíduo de forma muito diversa da forma sujeito recém surgida.
A constituição da forma sujeito como estrutura acontece apenas com a consolidação do capitalismo, que organiza as várias esferas subjetivas do sujeito moderno (sujeito da ciência, da espiritualidade, da intimidade, da arte, do direito) numa estrutura cujo centro é o sujeito do poder, o qual emerge apenas com a conquista definitiva do poder político pela burguesia na Inglaterra, com a Revolução Industrial, e na França, com a Revolução Francesa. O sujeito do poder, por sua vez, é também uma estrutura centrada, em cujo núcleo está o sujeito automático, de natureza essencialmente econômica, por se tratar do próprio capital subjetivado.
A estruturalidade da forma sujeito não implica em negar-lhe uma história, tanto de seu surgimento, quanto de seu desenvolvimento interno. Pelo contrário, ela é eminentemente histórica, pois, como se viu, surge embrionariamente no início da Idade Moderna e se firma como estrutura com a consolidação do capitalismo. Depois, já estruturalmente formada, a forma sujeito ainda tem uma história evolutiva, assim a estrutura do sujeito do poder, da qual estamos tratando de forma mais detalhada.
O sujeito do poder se configura inicialmente como sujeito automático, que já abarca a faceta do sujeito trabalhador (trabalho) e do sujeito monetário (capital), com um claro viés hierárquico que subordina os interesses do primeiro aos do segundo. Posteriormente é que vão se desenvolver os demais elementos estruturais, que são o sujeito reacionário, cidadão e identitário, cuja função é contrabalancear os aspectos mais destrutivos e desumanos do sujeito automático e a força política que lhe corresponde, o liberalismo.
Mas mesmo de forma embrionária as demais subjetividades componentes do sujeito do poder já estavam postos desde a emergência do sujeito automático. O sujeito reacionário do conservadorismo já se prenuncia, no início do capitalismo, com os monarquistas e um certo romantismo crítico do capitalismo, mas em bases reacionárias, como nos poetas nostálgicos do mundo medieval, mas também em autores bastante modernos, como Balzac, um monarquista convicto.
O sujeito cidadão do progressismo, que irá assumir o poder político apenas no pós-guerra, com a assunção do estado do bem estar social, já se encontra embrionariamente no movimento sindical e nas reivindicações reformistas e distributivistas ocorridas ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX.
O sujeito identitário do ativismo se prenuncia nas reivindicações das mulheres por igualdade e por direitos políticos e trabalhistas, já nas revoluções Francesa e Industrial. Prenuncia-se também na união dos intelectuais e políticos abolicionistas com as várias formas de resistência dos negros, que já existiam desde o início da escravidão nas Américas.
Mesmo o sujeito automático, centro do sujeito do poder, tem sua historicidade e passa por várias fases de desenvolvimento. Assim, a subjetividade liberal inicialmente ressaltou o aspecto racional do novo homem moderno, num claro movimento para desbancar a centralidade da fé religiosa em favor da ciência. É claro que, na prática e de forma subliminar (pelas costas do sujeito moderno), o conhecimento técnico e científico se subordinou à racionalidade do capital e, por isso, a tratava-se, antes, da primazia da racionalidade instrumental e não, como acreditavam os Iluministas, da realização de uma idealizada Razão Humana ontológica. O último ressurgimento do liberalismo, na forma de neoliberalismo, traz à baila o sujeito do desempenho, em que, no mesmo indivíduo, o trabalhador e o gerente/proprietário se unem numa subjetividade perfeccionista e que se submete aos rigores da competição capitalista espontaneamente, sem a necessidade da vigilância do chefe.
Em todo caso, a historicidade, tanto da forma sujeito, quanto do sujeito do poder, não altera os aspectos fundamentais do sujeito automático, centro concêntrico de ambas as estruturas subjetivas. A masculinidade abstrata, a racionalidade instrumental e a competitividade permanecem, desde o início, como caracteres fundamentais de sua constituição estrutural. Da mesma forma, as categorias básicas do capital permanecem representadas nas três facetas do sujeito automático: o trabalho no sujeito trabalhador, a mercadoria no sujeito consumidor e o valor no sujeito monetário. Estas facetas se manifestam de acordo com a atividade em que o sujeito está envolvido (no momento da troca, por exemplo, age o sujeito consumidor), mas cada uma delas pode predominar em certos indivíduos, a depender de sua classe. Assim, nos trabalhadores prevalece o sujeito trabalhador, na elite, o sujeito monetário e nas classes médias, o sujeito consumidor.
Por isso se afirma, aqui, que tanto a forma sujeito quanto o sujeito do poder são estruturas, pois apesar da historicidade que marca seu aparecimento e seus desenvolvimentos internos, uma vez estabelecidas como estruturas centradas, o seu núcleo (o sujeito automático) que pré-forma todo o universo subjetivo, não muda em essência. Por outras palavras, o sujeito automático (capital) é o Ser estruturante da subjetividade moderna, que funciona como motor imóvel, idêntico a si mesmo ao longo do tempo e imune aos desenvolvimentos históricos da periferia da estrutura.
O sistema capitalista como estruturas centrada
Em “Tempo, trabalho e dominação social”, Moishe Postone demonstra que, apesar da aceleração do tempo histórico que o sistema capitalista promove, marcado por profundas mudanças produtivas de criação de riqueza real, tecnológicas e no cotidiano das pessoas, ele mantém inalterada a forma valor, constituída pelo tempo e trabalho abstratos, que é sua riqueza de fato, ou seja, a produção de valor e mais valor é a prioridade que, subliminarmente, subordina as necessidades das pessoas e da natureza, instrumentalizando-as, juntamente com a técnica, em favor da reprodução do capital.
Por outras palavras, Postone mostra que o capitalismo se constitui objetivamente como estrutura centrada, em cujo núcleo encontra-se o capital (valor que se valoriza), motor imóvel e abstrato imune ao tempo histórico. Por isso foi possível para Marx elaborar várias tendências (leis) do capitalismo, pois como estrutura centrada ele têm sua lógica (sua gramática) própria e uma evolução relativamente previsível, tal com a de concentração e centralização do capital, queda tendencial da taxa de lucro, tendência à substituição de capital variável por fixo, necessidade de se expandir espacialmente, mas também a todas as esferas da vida, compulsão em produzir mercadorias de forma ilimitada etc.
A história da estrutura do Ocidente é longa e remonta, pelo menos, a Parmênides e sua teoria sobre o Ser imutável, reelaborado ricamente pela filosofia de Platão. As três grandes religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo retomam o sonho estrutural de um mundo criado e organizado por um Deus onisciente e onipotente, que seria o centro imóvel da estrutura-universo e do qual o homem (a alma humana) seria o espelho, ou seja, a imagem imperfeita, pois finita. É provável que estes três monoteísmos já prefiguram, na metáfora reflexiva do homem como imagem e semelhança de Deus, uma espécie de proto-sujeito, o qual Deleuze e Guatarri, no seu “Mil platôs” chamam de rosto.
Efetivamente se pode especular que, em termos psíquicos e sociais, o Deus judaico, cristão e muçulmano realmente existe como crença compartilhada e, como tal, há que se reconhecer que Ele exerce alguma coerção objetiva sobre as sociedades que nele creem, principalmente no período medieval, quando o Deus cristão é o centro do universo. Mas esta objetividade de Deus e suas leis é limitada exatamente porque a divindade esbarra nos limites da existência da crença e das instituições (Família, Estado, Igreja) encarregadas de mantê-la, via coerção e convencimento.
Por conta dessa limitação da existência da divindade como crença compartilhada, não se pode falar que o feudalismo se constitui efetivamente como estrutura centrada, mesmo que todo o seu imaginário aponte para uma sociedade hierárquica governada por Deus, por meio do Rei e seus nobres vassalos - os senhores feudais que detinham o poder político de fato, partilhado com o clero. Apesar de toda a coerção e rigidez hierárquicas medievais, sabe-se hoje que a posse efetiva da terra é que conferia poder real ao senhor feudal e que a dominação sobre os servos se exercia de forma direta, havendo amplo espaço para o arbítrio do soberano sobre seus súditos. A coerção explícita, exercida pela Igreja e pelo Senhor Feudal era necessária e rigorosa exatamente por não haver objetivamente uma estrutura centrada de onde emanasse um domínio “natural” (na verdade, naturalizado) sobre a sociedade como um todo, bem como sobre cada um de seus indivíduos.
Mas este raciocínio a respeito da Idade Média, grosso modo, pode ser aplicado a todas as sociedades humanas anteriores ao capitalismo, sejam elas estatais ou tribais, a julgarmos pelas pesquisas historiográficas, arqueológicas e antropológicas. Até o advento do capitalismo, não houve nenhuma sociedade objetivamente estrutural, guiada por um centro imóvel, com uma lógica rigorosa e direção previsível. Muito menos parece ter se confirmado o sonho estrutural de Levi-Strauss de se encontrar uma matriz estrutural, não de conteúdos primordiais, mas de formas básicas, da qual se poderia derivar todas as culturas humanas.
O capitalismo se constitui como a primeira sociedade objetivamente estrutural da história da humanidade. O longo sonho ocidental, de Parmênides a Hegel, passando por Platão e os teólogos cristãos, finalmente se realiza com o advento do capitalismo, mas como pesadelo. Pois o capital, como Ser terreno e abstrato da sociedade capitalista, não existe apenas como crença compartilhada, como o Deus cristão e as divindades de todas as outras culturas. Sua existência é objetiva e autônoma, pois, uma vez posto em movimento, ele atua de fato como uma segunda natureza, cujas leis condicionam as formas sociais que constituem indivíduos e coletividades. O capital, no entanto, não é consciente como seria o Deus cristão ou o Ser hegeliano, e sim completamente cego (inconsciente), a si-mesmo como Ser, mas também aos seres humanos, à técnica e à natureza, os quais ele mobiliza para sua reprodução. Além do mais, sua realização plena como Ser não implicaria na apoteose do humano, mas sim com sua destruição, primeiro, de sua própria humanidade subsumida na lógica fria e abstrata da mercadoria, depois, de sua existência como espécie, dado o grau de degradação social e ecológico que o capitalismo promove ao se desenvolver.
Por se configurar como uma estrutura centrada, cujas leis do valor são naturalizadas, o capitalismo não necessita da vigilância religiosa e política das sociedades imperiais, nem das interdições dos tabus das sociedades tribais. Neste aspecto, o capitalismo proporciona um aumento significativo da liberdade de ação e expressão dos indivíduos, que se expressa na recusa liberal em relação ao domínio direto da escravidão e da servidão, bem como nas liberdades formais do estado de direito. Por outro lado, a naturalização do valor, bem como do trabalho abstrato e da mercadoria, implica num domínio subliminar (pelas costas) sobre as pessoas num grau inédito na história da humanidade. Não se trata, pois, do domínio de uma divindade cuja existência esbarra nos limites da crença compartilhada, mas da coerção do capital, cuja existência é abstrata mas real, objetiva, e cujas leis, à semelhança da natureza, não são permeáveis à vontade humana. Não à toa, Moishe Postone e Robert Kurz costumam evocar a ideia de totalidade e totalitarismo ao se referir ao sistema capitalista e suas coerções impessoais e abstratas sobre os indivíduos, sem que estes se deem conta. O que eles denominam como totalidade não é outra coisa que a estrutura centrada a que nos referimos.
Estrutura social X estrutura individual
Ora, para que esse domínio impessoal, duplamente inconsciente (pois nem o capital nem os indivíduos sabem dele) e abstrato se exerça, é preciso que o capital agencie os indivíduos de uma forma que estes não percebam a coerção como social, mas natural e, portanto, incontornável, como são as leis naturais. A forma sujeito, centrada no sujeito do poder que, por sua vez, tem como centro o sujeito automático é exatamente este agenciamento do indivíduo para que ele funcione como instrumento de reprodução do capital.
Isto implica que a forma sujeito é o aspecto individual do capital. Sim, mas ela é, também, imediatamente social. Não apenas no sentido em que ela é a forma socialmente constituída que pré-forma a alma individual no capitalismo, mas também no sentido em que sua performance enquanto forma sujeito ocorre tanto como ação e expressão individual, quanto como desenvolvimento social, na forma de esferas de vida coletivas que, ao mesmo tempo formam e são formadas pelos indivíduos, tais como a política, a intimidade, a arte, a religião e o direito. A cada uma dessas esferas de vida coletiva corresponde uma sub-forma subjetiva (um sujeito) que o indivíduo vivencia introspectivamente, como interioridade psíquica, mas também externamente, como sujeito em ação na sociedade.
E cada uma dessas sub-formas subjetivas, por sua vez, se organizam como estruturas, cujos elementos constituintes são também sujeitos conflitantes, que disputam espaço em cada esfera de vida. Por exemplo, a sub-forma da forma sujeito que estamos investigando é o sujeito do poder, que se compõe, como vimos, dos seguintes elemento subjetivos: sujeito automático no centro; sujeitos reacionário, cidadão e identitário na periferia funcional; e sujeitos paranoico e revolucionário no limite disfuncional da estrutura. Estas subjetividades possíveis do sujeito do poder disputam a “consciência política” do indivíduo, mas cada uma delas correspondem, por sua vez, a uma força política coletiva (liberalismo, conservadorismo, progressismo, ativismo, fascismo e socialismo) que disputam a esfera política da sociedade.
É no interior das sub-formas da forma sujeito, portanto, que ocorrem as disputas psíquicas pela alma do indivíduo e sua correspondente disputa social pela esfera de vida coletiva. Na sub-forma sujeito da arte, por exemplo, pode-se mapear pelo menos três subjetividades conflitantes: o sujeito profundo, adepto de uma arte tradicionalista que sonda os abismos do ser e da psique; o sujeito construtor, que advoga uma arte experimental, em constante revolução formal; e o sujeito representativo, que preza a arte como representação social. A cada uma dessas subjetividades corresponde uma força estética em disputa pela esfera coletiva da arte: a tradicional, a vanguardista e a crítica.
Mesmo o sujeito da intimidade, que seria mais propenso a exprimir as idiossincrasias individuais, não deixa de se manifestar como sujeito coletivo. Freud, que o estudou a fundo, observou que, em geral, ele se manifestava como sujeito neurótico, embora houvesse outras possibilidades (outros sujeitos), como o narcisista, o perverso e o psicótico. A evolução do capitalismo no pós-guerra é marcada pela normalização da liberdade sexual e das demandas identitárias de gênero, que ganham aspecto movimento de massa com a contracultura e acabam por serem absorvidas pelo ideário do liberalismo e seu sujeito automático, bem como pelo do progressismo e seu sujeito cidadão.
A partir daí e com a emergência de uma classe média liberal no plano dos costumes, o sujeito da intimidade que predomina na maioria dos indivíduos deixa de ser o neurótico (reprimido sexualmente) e passa a ser o narcísico, mais condizente com o universo consumista, hiper-individualista e hedonista das classes médias que, nos países de primeiro mundo, constituem a maioria da população. Esta passagem do predomínio da neurose para o narcisismo, observada pelos psicanalistas contemporâneos, mostra que as tendências intrínsecas ao indivíduo (psíquicas) ou à espécie (biopsíquicas) são secundárias na constituição estrutural do sujeito da intimidade, que se caracteriza principalmente por tendências sócio-políticas.
Por outras palavras, demonstra que o sujeito da intimidade, no fim das contas, é pré-formado pelo sujeito do poder, e que mesmo suas manifestações mais incontroláveis e rebeldes, como os sujeitos psicóticos e perversos, os “loucos”, são posicionados estruturalmente como oposição à normatividade condicionada pelo sujeito do poder. A classificação obsessiva da loucura, racionalizada como um catálogo de transtornos e doenças mentais, promovida pela psicologia e pela principalmente pela psiquiatria, não deixa de ser um método para capturar e racionalizar os desvios das estruturas psíquicas tidas como normais, que são a neuróticas e as narcísicas, mais adequadas à reprodução do capital. Apenas para exemplificar a historicidade da forma sujeito e sua “normalidade”, o homem padrão medieval, nobre ou servo, seria considerado, pela métrica psicológica e psiquiátrica do século XX, um fanático psicótico com delírios religiosos, inadequado socialmente e, principalmente, imprestável para a produção de valor.
A forma sujeito e suas subformas (sujeitos do poder, da intimidade, da arte etc) é uma estrutura concomitantemente individual e social. Se houver alguma primazia, seria a da sociedade sobre o indivíduo, de forma semelhante à mitologia cristã do homem como espelho imperfeito de Deus. Aliás, o capitalismo nasce no seio do cristianismo medieval. Assim como a ideia de salvação individual já prenuncia aspectos da forma sujeito, não seria desproposital especular que o sujeito do poder seja a realização objetiva do desejo cristão do homem como espelho de Deus, sendo este, no caso, o Capital, que se subjetiva/encarna no humano como sujeito automático, centro concêntrico da forma sujeito em geral e do sujeito do poder em particular. Ao capitalismo como estrutura social, corresponde a forma sujeito como estrutura individual e suas respectivas esferas de vida coletiva que fazem a ponte entre as almas humanas e a sociedade capitalista, reino governado pelo “deus” terreno e abstrato da modernidade, o capital.
04 novembro, 2019
O fascismo é uma revolta anticapitalista
O conhecimento equivocado sobre o fascismo
É preciso conhecer o fascismo, pois há muitos enganos em relação ele. O primeiro erro é cometido pela elite e seus porta-vozes, os liberais de direita e os conservadores que, em geral, veem o surgimento do fascismo apenas uma anormalidade grotesca, que é também uma boa oportunidade de negócios e/ou de imposição de suas agendas morais. Por isso, acham que podem instrumentalizar o fascismo contra as esquerdas e em favor de seus interesses. Quando estes forem atendidos, basta se livrar do fedorento líder fascista e seus capangas e colocar algum político perfumado do sistema no lugar. É o que acontece agora com Bolsonaro e foi o que aconteceu com Hitler e Mussolini.
As elites e seus porta-vozes na economia, na política, na academia e na religião subestimam a monstruosidade fascista e sua sede insaciável por sangue, morte de destruição. Quando os fascistas derrotam as esquerdas, eles fazem guerra contra o inimigo externo, mas também contra os inimigos internos que eles inventam em seus delírios paranoicos: gays, judeus, petistas, macumbeiros etc. Por fim, eles se voltam contra a direita que acreditava controlá-los como uma marionete e a destrói.
O segundo erro, cometido pelas esquerdas, é sobre a natureza do fascismo. É um engano importante, pois os progressistas são os primeiros a identificar o fascismo e seus perigos. As esquerdas sabem reconhecer o monstro, mas se enganam sobre sua verdadeira natureza, bem como suas motivações.
Os progressistas costumam enxergar o fascismo como um plano desesperado das elites para enquadrar os trabalhadores em momentos de crise e grande insatisfação popular. Como o fascismo é fanático por ordem, disciplina e hierarquia, as esquerdas costumam ver nele uma espécie de recrudescimento do domínio das elites sobre o povo, utilizando-se de um líder oriundo dos extratos médios da sociedade.
Em suma, as esquerdas veem o fascismo como o mais severo dispositivo de controle burguês sobre os corpos supostamente rebeldes e preguiçosos dos trabalhadores, que, na visão das elites, deveriam ser apenas máquinas de trabalho eficientes, silenciosas, obedientes e felizes com sua condição. Realmente, este é o projeto fascista para os corpos trabalhadores, mas este objetivo de transformar pessoas máquinas de trabalhar não foi planejado e nem é executado pelos capitalistas, embora estes se aproveitem disso, num primeiro momento.
O fascismo como revolta inconsciente
O fascismo é, antes de tudo, uma revolta anticapitalista, só que sem consciência de que o capitalismo é a causa da revolta. O esquerdista mais radical é revoltado contra o capital, mas ele sabe disso, enquanto o fascista não. E nem pode saber, pois sua psique não está preparada para questionar seu modo de vida, seus valores, sentimentos e visão de mundo inteiramente moldados pela sociedade capitalista.
Então, o fascista precisa ocultar suas frustrações com o capital de si mesmo, ou seja, deve que esquecê-las e inventar outras razões (outros demônios) para seu sofrimento. Freud no ensinou que esta maneira de lidar com medos e frustrações se chama recalque. Quando não podemos/queremos ver certas verdades nós reprimimos estes conteúdos inconvenientes no inconsciente, onde ficam ocultos, recalcados, mas não mortos.
Esse é o problema, pois o reprimido, uma vez oculto, continua a viver nas sombras, sobrevivendo fora dos controles da consciência, de forma quase autônoma, alimentado por afetos negativos, como o medo, o ressentimento, a inveja e o ódio. O reprimido se torna uma espécie de monstro dos mundos inferiores. É o que as religiões costumam chamar de demônios, exus, maus espíritos etc. Algumas religiões, como o cristianismo, os rechaçam completamente, outras, talvez mais sábias, como a umbanda, procuram trabalhar cuidadosamente com estas entidades sombrias. Todo o trabalho da psicanálise, em última instância, é o de evocar estas potências reprimidas e levar o paciente a conhecê-las, lançar luz sobre elas e, com isso, neutralizá-las. As criaturas das sombras sucumbem diante da luz: se você as vê claramente, assim como suas motivações, então você já as derrotou.
É por isso que as esquerdas devem conhecer muito bem o fascismo, não como um projeto de domínio da elite sobre o povo, embora, como já disse, elas realmente tentam instrumentalizar o fascismo para explorar ainda mais o trabalho. A primeira coisa que a esquerda deve saber sobre o fascismo é que ele é a irrupção de conteúdos reprimidos do inconsciente coletivo. A segunda é que tais conteúdos, embora não pareçam num primeiro momento, exprimem uma revolta contra o próprio capitalismo. A terceira é que os fascistas não sabem que sua revolta é anticapitalista e que, por isso, seu precário “projeto” de sociedade reforçam, paradoxalmente, vários aspectos capitalistas, como o ideal de um homem trabalhador eficiente, barato, resignado e feliz. A quarta é que a revolta fascista, não podendo saber de seu real inimigo, o capitalismo, delira outros inimigos demoníacos, sobre os quais projeta seus medos, ódios e ressentimentos.
Esse outro demoníaco são grupos sociais que se tornam, para o fascista, a fonte do mal, da corrupção e da imoralidade que assola a sociedade e que, por isso, devem ser derrotados, humilhados e, no limite, eliminados. Tais grupos variam conforme o contexto, mas são sempre minorias discriminadas, ou seja, que já carregam historicamente o fardo do preconceito: judeus, imigrantes, árabes, LGBTs, mulheres (principalmente as emancipadas), negros etc.
Como o capitalismo gera o fascismo
Mas que tipo de frustração com o capitalismo leva a monstruosidade do fascismo? A primeira e mais evidente é a desigualdade social. O sujeito monetário do capitalismo (que Marx chama de sujeito automático) deve ter basicamente dois afetos motivadores: o medo e a ambição. A ambição para acumular mais capital e o medo de perder o que se tem, mesmo que seja pouco. Estes afetos têm, cada um, o seu reverso. O medo de cair provoca no sujeito monetário um ódio defensivo contra os “de baixo”, ou seja, as pessoas das classes inferiores para as quais o sujeito não quer cair. A ambição provoca, por sua vez, a inveja para com os “de cima”, que costumam fazer questão de provocar esta inveja nos inferiores, pois tal sentimento ressalta a superioridade de uns em contraste com a inferioridade de outros, deixando claro quem são os vitoriosos na guerra capitalista.
Em momentos de crise, quando os perdedores são privados do mínimo necessário para a sobrevivência e os extratos médios, que gostam de se verem como vencedores, se sentem ameaçados pela pobreza, esses dois pares de afetos motivadores do sujeito monetário (ambição e inveja, medo e ressentimento) perdem sua funcionalidade capitalista de valorizar o valor e passam a ser direcionados a bodes expiatórios construídos de forma delirante. Ao perderem sua funcionalidade capitalista, tais afetos também perdem todos os limites e, negativos que são, passam a ter como objetivo o aniquilamento puro e simples do suposto inimigo - no limite, o desejo de destruição fascista, se não for contido, acaba por se voltar à totalidade social, pois o reprimido, ao irromper, deseja apenas a destruição de tudo a sua volta e, depois, de si mesmo.
As crises capitalistas agudas, como a que estamos vivendo agora e como a da década de 1930, são o gatilho para a irrupção de insatisfações e mal-estares acumulados no processo de valorização do capital. E não são apenas insatisfações com a desigualdade social, que decorrem da má distribuição da riqueza e renda, e se encontram no nível da circulação do capital. Na sociedade capitalista, há uma insatisfação mais profunda, silenciosa e poderosa que a provocada pela injustiça social, que atinge todos os extratos sociais (inclusive os vencedores) e que ocorre não no processo de circulação do capital, mas na sua produção, e que que é provocada, de forma concreta, pelo trabalho abstrato ou, simplesmente, trabalho.
Todos trabalham no capitalismo, até mesmo a elite, pois a administração da acumulação também é trabalho, gerencial, de alto nível, mas trabalho. Elite e trabalhadores se orgulham de trabalharem e é pelo trabalho que as pessoas conquistam reconhecimento social e, em consequência, auto-reconhecimento (auto-estima). O trabalho é sagrado, confere dignidade e deve ser louvado. É para ele que a escola e a família nos prepara na infância e juventude, é ele que nos torna adultos honestos, e seus frutos vão nos proporcionar uma velhice digna no futuro.
Mas o que é o trabalho, essa invenção europeia que não existe em nenhuma outra cultura senão na modernidade? Marx nos mostra que trabalhar é uma atividade em que nosso tempo e esforço se transforma em mercadoria. Esta, por sua vez, é portadora de valor de troca, uma grandeza abstrata que se mede exatamente como tempo de trabalho necessário para se produzir uma mercadoria e que é a riqueza do capitalismo. Em outras palavras, trabalho é valor/dinheiro. Quando trabalhamos, submetemos toda a nossa humanidade (afetos, força física, inteligência, sensibilidade) à lógica da mercadoria, que nada mais é que a lógica fria dos ganhos monetários: o sujeito do trabalho é um sujeito monetário ou, para usar o termo marxista, o sujeito automático - marionete do capital. E no capitalismo todos precisam trabalhar para sobreviver, mas também para ser considerado digno, pessoa de bem: para se justificar a sociedade capitalista transforma a necessidade de trabalhar numa virtude.
Ora, essa subsunção da concretude humana à abstração monetária, das qualidades humanas às quantidades monetárias provocam uma enorme frustração psíquica, pois nos impede, em última análise, de nos realizarmos como seres humanos, nos desumaniza em favor de uma processo maquinal de acumulação de uma riqueza abstrata. A riqueza capitalista implica necessariamente no empobrecimento humano, pois para haver acumulação capitalista as quantidades abstratas da mercadoria precisam submeter as qualidades concretas das pessoas.
O sujeitos monetários são sujeitos da razão, mas de uma racionalidade instrumental, posta a serviço do capital. Em favor da razão instrumental capitalista todo o resto da alma humana deve se submeter à lógica da mercadoria: se atrapalhá-la deve ser rechaçada, se ajudar deve se disciplinar e se manifestar como instrumento da acumulação.
Portanto, é por meio da relação social que chamamos trabalho que o capital se reproduz por meio dos seres humanos, instrumentalizando-os como peças na maquinaria capitalista, frustrando-os em sua humanidade. Esta frustração fundamental, que é a desumanização do humano operada pelo trabalho, é condição fundamental para a internalização do capitalismo pelo sujeito moderno, que se torna, então, sujeito monetário/trabalhador. Fundamental também é o ocultamento dessa frustração com o trabalho, que é empurrada para o inconsciente por meio do recalque. Em lugar da realidade do caráter alienante e desumano do trabalho, ele aparece como uma atividade dignificante do humano, uma virtude.
Como somos todos sujeito do trabalho (sujeitos monetários), resulta que sofremos todos, em alguma medida, das frustrações resultantes do trabalho, assim como sofremos do recalque destas frustrações. Em consequência, somos todos, em potência, sujeitos paranoicos, ou seja, fascistas. Mas mais importante que esta constatação a nível de indivíduo, é que o fascismo é uma presença constante no capitalismo, pois a constituição do sujeito trabalhador, abstrato e vazio de sentido, implica necessariamente na repressão da concretude humana e, portanto, na consolidação de um fascismo potencial nos submundos psíquicos da sociedade capitalista. Potencial que, em momentos de crise, pode irromper e se realizar como facção política ou mesmo poder dominante na sociedade capitalista, desencadeando o furor destrutivo dos monstros que rompem os grilhões que os aprisionavam.
A veneração fascista do trabalho
É por meio do trabalho que o capitalismo se realiza entre as pessoas. No trabalho, o capitalismo é vivenciado como relação social concreta e é nele que as pessoas empregam, ou reprimem, seus conhecimentos, talentos técnicos e afetos. Mas, como vimos, é o trabalho que desumaniza as pessoas, exigindo que todos os aspectos da alma humana se subordinem à racionalidade instrumental da lógica da mercadoria.
Este sufocamento da alma provocado pelo trabalho e seu recalque é a causa principal da potência fascista que se desenvolve nas sombras do inconsciente. Era de se esperar que o fascismo tivesse alguma restrição ao trabalho, uma vez que se trata de uma revolta anticapitalista, mas o que ocorre é exatamente o contrário. O fascista é um defensor fervoroso do trabalho e do homem trabalhador. Aliás, o seu projeto de homem é que ele se torne uma máquina perfeita de trabalho, quase um autômato do capital.
A explicação desse paradoxo é a mesma que se dá à afirmação fanática da heterossexualidade promovida pelos homossexuais auto-reprimidos, que nutrem, por sua vez, um ódio mortal aos gays assumidos. O fascista necessita afirmar como positivo aquilo que mais o oprime, o trabalho, desviando seu medo, ódio e frustração para inimigos imaginários, que costumam ser acusados de preguiçosos (negros, pobres, ciganos, chicanos, imigrantes) ou parasitas (judeus, políticos, grandes empresários) do homem médio trabalhador, que é vista como a pessoa de bem ingênua, honesta e pura.
A revolta do “gay enrustido” é contra as regras sociais que o fazem sofrer impondo-lhe o padrão de comportamento héterossexual, mas como ele não pode, do ponto de vista psíquico, afrontar o status quo se assumindo para si e para os outros como homossexual, ele adere fanaticamente à normalidade hétero, o que acarreta mais sofrimento que, por sua vez, gera mais fanatismo hétero e ódio aos gays.
Da mesma forma, o fascista se torna um fanático pelo trabalho que o faz sofrer. Sem poder ver a causa real desse sofrimento, ele se apega ainda mais ao trabalho e, em consequência, ao capitalismo, projetando os aspectos desumanizadores do trabalho e do capital em minorias concretas, que passam a ser demonizadas como corruptoras do mundo.
É difícil para as esquerdas perceberem este processo de recalque em relação ao trabalho, porque sua perspectiva de mundo é fundada no ideário moderno/capitalista de louvor ao trabalho. O projeto progressista, aliás, é de valorização do trabalho por meio de uma justa distribuição do lucro (mais valor) capitalista entre os donos do capital e os trabalhadores. Em relação ao trabalho, tanto as esquerdas, quantos os liberais e conservadores concordam com os fascistas em considerá-lo uma atividade dignificante e virtuosa.
Por isso é tão difícil, mesmo para as esquerdas, inclusive as marxistas, entenderem o fenômeno fascista, pois partilham com ele o mesmo amor pelo trabalho abstrato. Na sociedade capitalista, apenas os artistas costumam perceber alienação e desumanização que trabalho provoca. À arte foi dada a possibilidade de questionar a relação social fundamental do capitalismo, o trabalho. Por isso, a crítica a ele é tema de muitas obras de arte modernas, mas está presente também como comportamento social, na recusa dos artistas em tratar a atividade artística como trabalho/mercadoria, o que costuma levá-los a graves conflitos existenciais ou a dificuldades de sobrevivência. Em todo caso, a liberdade para questionar o capitalismo em sua base mais sagrada, o trabalho, ocorre às custas da arte se transformar num reino da inutilidade (da beleza estética), cuja expressão crítica pouco interfere na vida prática das pessoas, que continuam a se guiar pela lógica abstrata da mercadoria.
Qual alternativa?
O fascismo deixa o sistema capitalista à beira do abismo. Os liberais e conservadores acabam por perder espaço para a horda fascista, que passa a ocupar o terreno da direita tradicional. A alternativa progressista das esquerdas se mostra ineficiente e comprometida demais com o sistema capitalista em crise e suas elites predadoras, que não desejam mais repartir os escassos lucros do sistema com um estado de bem estar social que poderia garantir alguma paz social. Parece que a vitória da democracia capitalista de feição social-democrata sobre o fascismo, ocorrida nas décadas de 1940 e 1950, não está mais no horizonte.
A única saída contra o fascismo é o conhecimento. É a solução psicanalítica de conhecer as monstruosidades que se movem nas sombras do inconsciente: quem são, quais seus motivos e desejos. Mas isto implica em questionar o trabalho e a desumanização que ele promove, em criticar a atividade sagrada da cultura moderna, tanto para a esquerda quanto a direita. O fascismo é um monstro das sombras, que depende delas para sobreviver. Quando se lança luz (conhecimento) nestas criaturas sombrias, elas somem como fumaça no ar.
A questão é que um conhecimento dessa natureza nunca é apenas uma contemplação desinteressada da psique, mas uma ação que desestrutura, no caso da psicanálise, o próprio sujeito, obrigando-o a se reestruturar em novas bases. No caso do sistema capitalista, o conhecimento profundo do fascismo implicaria em questionar o trabalho como relação social fundamental na vida das pessoas. Implicaria também em questionar o valor (dinheiro) e a mercadoria como princípios fundantes da vida social. Em suma, implicaria num questionamento total do próprio capitalismo, tanto em seus fundamentos subjetivos quanto sociais. Sem que tal conhecimento do fascismo e suas causas seja difundido entre as pessoas, as revoltas populares que se alastram pelo mundo têm grandes possibilidades de serem capturadas pela extrema direita e se tornarem movimentos neofascistas, como ocorreu nos EUA de Trump e no Brasil de Bolsonaro.
O fascismo é uma revolta que contrapõe à racionalidade instrumental do capitalismo, não uma outra racionalidade mais humana, mas a irracionalidade pura da violência e da morte. Em resposta à produção pela produção capitalista, o fascismo dispara um processo de destruição pela destruição, justificado como purificação moral do mundo e muito mais letal que a já perigosa produção de valor. E como resposta à desumanização das abstrações capitalistas que constituem o sujeito universal do direito, do trabalho e do mercado, o fascismo evoca fanaticamente os sujeitos concretos e reacionários do conservadorismo, bem como suas respectivas hierarquias pré-modernas: homem X mulher; hétero X homem, branco X negro, nacional X estrangeiro; cristão X não cristão etc
O fascismo não é apenas um modo distorcido de agir e ver o mundo. Ele é um limite político e subjetivo do próprio capital e suas categorias constituintes: trabalho, valor, mercadoria e sujeito do trabalho. A gestação do fascismo como filho das sombras da sociedade da mercadoria é permanente e decorre da profunda desumanização a que o capital submete as pessoas para se reproduzir, transformando-as em mercadoria-trabalho abstratas e vazias de sentido. A irrupção dos neofascismos atuais é sintoma de crise aguda do capitalismo, como foi na década de 1930.
A única forma de se evitar que o fascismo coopte a revolta das massas e a transforme num movimento irracional de destruição pela destruição é conhecer o fascismo e suas causas a fundo. Isso significa conhecer o criticar os fundamentos do capitalismo que, por sua vez, levará à necessidade de se inventar uma outra estrutura social, na qual o trabalho (assim como valor e a mercadoria) seja abolido como relação social. Por outras palavras, a única forma se nos livrarmos do fascismo é a emancipação do capitalismo.
10 outubro, 2019
Fascistas
Da série "Capitalismo em agonia"
Este texto é a continuação dos ensaios “Liberais, conservadores, progressistas e ativistas” e "Socialistas"
O fascismo da década de 1930 e os neofascismo atuais
Em 1986 Moishe Postone publicou um importante ensaio intitulado Anti-semitismo e nacional-socialismo com uma série de ideias originais sobre o nazismo, o fascismo e o anti-semitismo. Uma das originalidades de Postone é afirmar que o nazismo não é um movimento pró-capitalista ou uma espécie de ditadura burguesa contra o trabalho, mas se trata de uma revolta essencialmente anticapitalista, embora os nazistas e fascistas, em geral, não tenham consciência disso.
Uma outra descoberta fecunda de Postone é a de que o nazismo e o fascismo cultuam, fanaticamente, os aspectos concretos do capital, que são a técnica, a indústria e os bens, identificando-os com a tradição e o povo alemão, numa espécie de biologização do concreto. Em contraposição, o nazismo despreza e teme o lado abstrato do capital, expresso pelo dinheiro e biologizado na figura do judeu como raça maldita, antinacional e cosmopolita como o capital, e que se identifica com o capitalismo e seus males.
Postone evita uma abordagem psicológica do fascismo, procurando se ater a seus aspectos sociais, investigando como sua lógica emerge da própria lógica do capital, ao mostrar de que modo sua evocação às tradições não resulta numa proposta conservadora ou restauradora de tempos imemoriais, mas se vincula à exaltação da técnica e da indústria, ou seja, da face concreta da mercadoria (valor de uso), em oposição a seu lado abstrato, o valor, que se vincula aos judeus.
Embora Postone não o diga explicitamente, esta abordagem historiciza o fascismo, circunscrevendo-o no âmbito exclusivo do capitalismo. A existência de um “Fascismo eterno” ou trans-histórico, como preconizado por Umberto Eco em sua famosa conferência de 1995 certamente não se conforma às ideias de Postone. Em todo caso, a concepção de fascismo de Eco, baseada não na lógica interna de seu desenvolvimento, mas na manifestação de algumas das 14 características que ele lista, acaba por ser útil para identificarmos os neofascismos contemporâneos, que se desenvolvem e se manifestam de uma forma cuja lógica não parece se enquadrar no funcionamento estrito do nazismo e fascismo tradicionais de década de 1930, objeto da análise de Postone.
A primeira diferença dos neofascismos atuais com o tradicional é que os primeiros não são necessariamente anti-semitas. No caso Brasileiro, por exemplo, ocorre o contrário, pois a aproximação do bolsonarismo com o cristianismo evangélico leva exatamente a uma exaltação do judaísmo e uma aproximação com o estado de Israel, em detrimento dos estados muçulmanos. Outra diferença é que os neofascismos atuais podem também não demonizar as finanças, o lado abstrato do capital, em favor da técnica, da indústria e da produção de mercadorias, que são seus aspectos concretos. Novamente, o Brasil atual serve como exemplo, pois a aliança do bolsonarismo com o neoliberalismo mais tacanho refutaria a tese de que o fascismo necessariamente deve privilegiar o aspecto concreto do capital.
Estas diferenças, que ocorrem em pontos fulcrais, ou colocam a tese de Postone em cheque, pelo menos se ela pretende explicar o fascismo para além de sua forma “tradicional” manifesta na década de 1930; ou colocam em cheque as teses atuais, de que grande parte dos movimentos de extrema direita que se espalharam pelo globo a partir da crise de 2008 são formas de fascismo ou, por outras palavras, neofascismos. Se o ensaio de Postone é limitado, aplicando-se apenas ao fascismo tradicional, então Umberto Eco teria razão, não na trans-historicidade do fascismo, mas em seu método de descrevê-lo, que só poderia ser fenomenológico, identificando algumas de suas manifestações características, e não por meio da investigação de sua lógica interna, como quer Postone.
A desumanização capitalista e a irrupção do sujeito paranoico
O que se propõe, aqui, é mostrar que o fascismo tem, sim, uma lógica interna de desenvolvimento e que as ideias de Postone descrevem tal lógica de forma magistral, mas restrita ao contexto dos anos 30 do século passado. A primazia dos aspectos concretos da sociedade capitalista é fundamental no fascismo, como observa Postone, mas esta concretude não se manifesta necessariamente de forma moderna, se identificando com o lado concreto do capital, ou seja, a técnica, a indústria e a produção de mercadorias. Esta foi uma característica do fascismo italiano e japonês e do nazismo alemão, nações que na década de 1930 já possuíam uma identidade nacional fortemente vinculada à industrialização.
Um outro aspecto do concreto ao qual tanto o fascismo original quanto os neofascismos atuais se apegam é o universo tradicional (mesmo no caso do nazismo alemão) cultivado pelo conservadorismo que, como vimos em outro ensaio, se trata de uma força política e de uma forma de ser e ver o mundo que é estrutural para o capitalismo. A visão conservadora é um antípoda necessário (por isto é estrutural) ao liberalismo e sua afirmação do sujeito automático como masculinidade abstrata. Os conservadores negam a abstração do masculino efetuada pelo capital e expressa nas ideias liberais, e insistem na reencarnação do masculino no corpo do homem e do feminino no corpo da mulher. Por derivação, essa biologização e inferiorização do feminino, que caracteriza a mulher como irracional e passiva, é projetada também nas minorias concretas de cada contexto específico: negros, LGBTs, imigrantes, árabes, índios etc.
No processo de constituição do sujeito automático, as pessoas são paulatinamente despidas de sua humanidade, pois todas as relações sociais, comportamentos e características que as definem como subjetividades concretas vão sendo subordinadas às exigências da racionalidade instrumental e da competitividade que caracterizam o sujeito moderno, universal, abstrato e vazio de sentido. Sujeito que se relaciona socialmente por meio da lógica da mercadoria, seja como trabalhador, consumidor ou proprietário, relegando as demais esferas da vida a segundo plano. No capitalismo, a afetividade, as relações familiares e comunitárias, a expressão subjetiva, a espiritualidade, a estética e a moral acabam por se subordinar aos imperativos do capital, que se encarna no indivíduo como sujeito automático, cuja visão de mundo se define pela lógica da mercadoria e se expressa de forma mais imediata nos ideais do liberalismo.
Nesse processo de constituição do sujeito automático, as dimensões concretas do humano são reprimidas, o que acarreta uma imensa frustração com a sociedade capitalista e sua fúria abstratizante. Essa frustração também deve ser reprimida, bom como sua causa, a lógica do da mercadoria, que são esquecidas pelo sujeito ou, em termos psicanalíticos, recalcadas no inconsciente. Nesse processo, o trabalho abstrato, que é a única possibilidade de sobrevivência para a quase totalidade das pessoas no capitalismo, sofre uma uma inversão valorativa, pois de uma necessidade estafante e sem sentido, que provoca a desumanização dos sujeitos concretos, se transmuta, na visão dos sujeitos, em uma atividade virtuosa que dignifica o trabalhador e lhe proporciona o reconhecimento social como cidadão de bem.
Portanto, a realidade desumanizadora e massacrante do trabalho, da mercadoria e do valor, do capital enfim, como causa da miséria humana nas sociedades capitalistas é tornada inconsciente, num processo semelhante ao recalque da psicanálise. Esta nos ensina que os conteúdos reprimidos, uma vez confinados no “espaço do inconsciente” não deixam de agir na economia psíquica (inclusive consciente) e de se desenvolver subterraneamente, de forma quase autônoma e à revelia da consciência. O reprimido, caracterizado por sentimentos negativos como o medo, a frustração, a mágoa e o ressentimento, toma, então, contornos terrificantes e mórbidos, constituindo um espaço sombrio na alma, ignorado pela consciência. Esta persona sombria, que muitas religiões identificam com deuses infra-terrenos, demônios ou maus espíritos, ao se desenvolver como entidade autônoma, procura maneiras de irromper na superfície da consciência, fundindo-se ou mesmo se sobrepondo (tomando) ao sujeito consciente.
O fascismo é exatamente esta necessidade frustrada de sentido e concretude da existência humana, reprimida no capitalismo em favor da prevalência do sujeito automático, abstrato e vazio de sentido, cuja finalidade é apenas servir à reprodução do capital. Essa sombra reprimida na alma do homem moderno constitui a proto-subjetividade fascista, acossada, infernal, doentia, violenta e vingativa, que projeta no mundo seus próprios males, enxerga um inimigo temível por toda a parte e é tomada pelo desejo de morte e destruição. O homem fascista (e é sempre homem, mesmo quando a mulher é fascista) é resultado da irrupção de um sujeito paranoico, gestado nos submundos infernais do inconsciente.
O fascista, como um sujeito paranoico, se desenvolve nas sombras do sujeito automático do liberalismo, racional e competitivo, mas também do sujeito cidadão do progressismo, que se constitui pela solidariedade (feminilização) abstrata. Ele se gesta sob as asas do sujeito reacionário do conservadorismo, cuja função é lidar de forma compensatória, portanto integrada e não disruptiva, com a concretude humana rechaçada pelo sujeito automático.
Sujeito paranoico X sujeito revolucionário
A emergência do fascismo na sociedade corresponde, no plano da subjetividade, à disrupção do sujeito paranoico a partir do sujeito reacionário do conservadorismo. Trata-se de um processo diferente da emergência do sujeito revolucionário do socialismo, que acontece também como uma ruptura, mas que se dá pela radicalização do sujeito cidadão do progressismo. Enquanto o sujeito paranoico surge na forma de uma irrupção violenta e caótica do reprimido, cujo desejo dominante é a violência e a destruição, sem outra finalidade que não seja purgar o mundo da corrupção e do inimigo, o sujeito revolucionário emerge como uma extrapolação dos limites do sujeito cidadão da social-democracia.
Os socialistas, ao contrário dos fascistas, são movidos pelo desejo utópico de uma fraternidade universal e seu objetivo é a fundação de uma nova ordem social igualitária. A violência revolucionária é, ou deveria ser, apenas um meio para a emancipação do capitalismo, e não um fim em si mesmo como no fascismo. (É interessante notar que o sujeito revolucionário, apesar de pressupor logicamente o sujeito cidadão, na verdade o antecipa historicamente: à época da revolução soviética não havia se configurado ainda o sujeito cidadão do estado do bem estar social, cuja emergência se daria nos anos 30, mas que se consolidaria apenas no pós-guerra, em resposta, inclusive, à ameaça socialista soviética e seu sujeito revolucionário.)
Conservadorismo e fascismo
Em situações “normais” do sistema capitalista, é o conservadorismo e, mais recentemente, o ativismo, que lida com as relações sociais e conteúdos concretos que o capitalismo relega a segundo plano e que acabam por se tornar conteúdos reprimidos na economia psíquica do sujeito moderno. Ao reencarnar o masculino no homem e afirmar sua superioridade sobre a mulher e derivar, de acordo com cada contexto, esta relação de superioridade do homem para outras relações entre maioria e minorias concretas (hétero x homo, branco x não branco, nacional x estrangeiro, cristão x não cristão, pessoas do sul e sudeste x nordestinos etc) o conservadorismo tenta, por meio de mecanismos de compensação e deslocamento, gerir o permanente mal estar do sujeito moderno, obrigado a se submeter às abstrações desumanizantes do sujeito automático.
É importante anotar que, como compensação e gestão de crises dos conteúdos reprimidos do sujeito moderno, o conservadorismo tem o potencial de penetrar como força política e visão de mundo em todas as classes sociais, sejam elas perdedoras (ralé) ou vencedoras (elites e classes médias) da disputa capitalista. Mas em um nível mais superficial e imediato, o conservadorismo também serve como compensação à humilhante feminilização dos perdedores do sistema, ao afirmar a superioridade ontológica (de cunho natural ou divino) de uma maioria específica sobre minorias historicamente fragilizadas socialmente. Independente do sucesso ou fracasso na disputa capitalista, o homem seria superior à mulher, o branco ao negro, o hétero ao LGBT etc.
Por isso, as forças conservadoras penetram em todas as classes sociais, mas se tornam particularmente fortes nas classes médias baixas e na ralé, que se sentem e são tratadas como perdedoras e feminilizadas pelas classes vencedoras. Nesses extratos sociais derrotados na competição capitalista, o conservadorismo tanto compensa, num nível mais profundo, o mal estar dos conteúdos reprimidos do sujeito moderno, comum a todas as classes, quanto serve de contrapeso à feminilização abstrata a que os perdedores são submetidos.
Quando o fascismo irrompe na sociedade, ele se torna um fenômeno disseminado em todas as classes sociais, pois os conteúdos concretos reprimidos são comuns a todos os sujeitos modernos, mas ele costuma ser mais forte no chamado homem médio, pertencente às classes médias baixas, que conheceu alguma prosperidade, mínima que seja, durante a vida, e que se encontra, durante a crise, em vias de perder ou já perdeu o pouco que teve. É nesse homem médio, acossado pelo medo e pelo desespero da perda, que o fascismo encontra sua ponta de lança para sua irrupção. E é essa subjetividade frágil e furiosa que será um dos sustentáculos mais perenes e sólidos para o sujeito paranoico fascista, à procura de um líder semelhante a ele (um homem médio e tomado pela fúria) e de um ou vários inimigos demoníacos a quem culpar por todas as corrupções do mundo e por sua própria desgraça.
Conservadorismo, religiosidade evangélica e neofascismo atual
Num segundo momento, o fascismo se alastra por todo o espectro social, como uma metástase, atingindo as classes altas onde prevalecia o liberalismo e os miseráveis onde o progressismo distributivista ou, dependendo do contexto, o ativismo costumam ser fortes. Esta capacidade de disseminação fascista por todas as camadas sociais é preparada pelo conservadorismo, que para compensar o mal estar da repressão dos conteúdos e relações sociais concretos, evoca nos sujeitos a fé numa maioria concreta que subordina outras minorias. A palavra fé aqui é bem posta, pois este trabalho conservador é geralmente capitaneado ou, pelo menos, recebe o apoio decisivo da religião.
Assim, no Brasil contemporâneo, a eclosão do neofascismo bolsonarista se dá principalmente nas classes médias amedrontadas pela possibilidade de decadência econômica e ressentidas com a ascensão relativa dos pobres na era lulista. Mas o ovo da serpente fascista já era chocado desde pelo menos a década de 80, quando começa a ascensão irresistível do cristianismo evangélico pentecostal. No plano dos costumes, o pentecostalismo é extremamente conservador e puritano, caracterizado pela homofobia, machismo e, não raro, misoginia; pela proibição do uso de quaisquer drogas; e pela aversão ao catolicismo e principalmente ao espiritismo, candomblé e umbanda, consideradas práticas religiosas demoníacas. No aspecto econômico, os pentecostais tendem ao liberalismo meritocrático e se guiam pela teologia da prosperidade, que vê a melhoria de vida como prêmio de Deus pela fé, mas também pela adesão bem sucedida do indivíduo ao valores e comportamentos do sujeito automático. Em consonância com o capitalismo, o pentecostalismo propaga como virtudes o individualismo, o consumismo, a competição, a ética do trabalho e a meritocracia, o que torna o evangélico, em geral, avesso a todo tipo de progressismo ou ativismo.
No homem pentecostal (assim como no protestante europeu e norte-americano) fica claro como o conservadorismo funciona como um contrapeso à prevalência do sujeito automático, que impõe as abstrações vazias do capital ao sujeito moderno e reprime os conteúdos concretos. Ao promover, simultaneamente, o sujeito abstrato e o sujeito reacionário, as igrejas pentecostais nada mais fazem do que realizar a função estrutural do conservadorismo de reagir às abstrações do capital, sem questioná-lo como causa do mal estar do sujeito moderno. A causa das misérias capitalistas é desviada para as minorias sociais discriminadas e consideradas inferiores ou para grupos políticos corruptos e corruptores da sociedade, que geralmente defendem estas minorias, como é o caso dos progressistas e ativistas em geral. No Brasil atual, o petismo se tornou, na visão neofascista, a fonte da corrupção política e econômica e o propagador de políticas distributivas que atentam contra a meritocracia da ética do trabalho, ao sustentar “vagabundos” com dinheiro público. Desta perspectiva, a crítica pentecostal faz coro com a aversão liberal das elites e classes médias aos governos petistas. Mas, de uma perspectiva mais reacionaŕia, o cristianismo pentecostal (e, em grande parte, católico) também vê o petismo como promotor da corrupção moral da sociedade, ao acolher e apoiar, em seus governos, os ativismos feminista, negro, religioso e LGBT, promotores de valores “demoníacos” que questionam e subvertem as hierarquias divinas dos grupos sociais concretos.
A irrupção do fascismo a partir do conservadorismo
O fascismo emerge quando o conservadorismo e progressismo fracassam simultaneamente como contrapesos ao liberalismo, o que acontece nos momentos em que o sistema capitalista se vê ameaçado pelo colapso, como na década de 1930 e, agora, na década de 2010. Na verdade, é o progressismo que fracassa em compensar a fúrias abstratizante e em salvar da miséria as massas populares, que aderem em número crescente ao conservadorismo. Este, hipostasiado, explode como fascismo. Pode-se dizer que o conservadorismo fica diminuído em tempos fascistas, mas como vítima de seu próprio sucesso em opor conteúdos e hierarquias concretas às abstrações liberais e progressistas.
Tanto o fascismo tradicional da década de 1930 quanto os neofascismos atuais irrompem em momentos de crise aguda do capitalismo. A causa imediata da emergência fascista é que, na crise, um imenso contingente de pessoas se tornam perdedoras do sistema, sentindo-se humilhadas (feminilizadas), sem auto-estima nem reconhecimento social. Um outro contingente de pessoas das classes médias temem se tornar perdedoras. As pessoas destas duas massas (a já perdedora e a que teme se tornar) em grande parte já próximas da ideologia conservadora, se revestem, então, do sujeito reacionário tipicamente conservador, cuja função é canalizar o medo, a frustração e o ódio que o capitalismo gera nas subjetividades, para questões morais e determinados grupos sociais, que serão vistos como corrompidos e corruptores, ou seja, como a fonte da crise social.
Contudo, se este processo moral de busca e destruição do “mal”, de purificação do corpo social, se inicia como um fortalecimento do conservadorismo, logo ele sai do controle, não funcionando mais como um contrapeso ao liberalismo. Na verdade, ele deixa de ser funcional no âmbito do próprio capitalismo e se torna um fim em si mesmo: se o capitalismo instaura a irracionalidade da produção pela produção, o fascismo lhe opõe, como num espelho sombrio, uma loucura ainda mais grave, a da destruição pela destruição. O sujeito reacionário do conservadorismo, ainda civilizado para os padrões capitalistas, dá lugar então ao sujeito paranoico do fascismo, cuja esfera social da psique passa a ser dominada pelos afetos do medo e do ódio, que não mais se contêm diante dos limites do estado de direito liberal e necessita efetivar a purgação moral do corpo social corrompido exercendo a violência, simbólica e física, contra os grupos sociais considerados imorais.
Neofascismo brasileiro
A barbárie fascista se efetiva por quatro concretizações, em oposição às abstrações universalistas do liberalismo e do progressismo. A primeira é a concretização do grupo das pessoas de bem, formado por grupos sociais majoritários e, portanto, másculos, definidos por um ou vários critérios de pertencimento social, às vezes conflitantes entre si: homens, brancos, héteros, cristãos, nacionais etc. A segunda é a concretização da minoria corrupta a ser combatida em um ou vários grupos sociais: feministas, negros, LGBTs, não cristãos, imigrantes etc. A terceira concretização é a da violência contra os grupos demonizados, que devem convertidos, curados/purgados do mal, aprisionados ou mesmo eliminados fisicamente.
A quarta concretização, destacada por Moishe Postone em seu ensaio, é a eleição de um ou mais aspectos concretos da sociedade, que serão louvados e elevados à condição de valores dignificantes, como, por exemplo, a técnica e os bens industriais de uma sociedade industrial ou a produção de bens primários de uma sociedade agrícola. Mas a concretude evocada pelo fascismo também passa, necessariamente, por aspectos comportamentais, de pertencimento ou de marcas sociais, que são alheios à produção capitalista, tais como raça, a religião, local de nascimento, orientação sexual e de gênero etc.
O fascismo necessita, portanto, de eleger certas características concretas alheias ao processo de produção que possam exprimir e definir tanto os grupos sociais majoritários (masculinos) quanto as minorias corrompidas (feminilizadas) a serem dominadas. Moishe Postone aponta que o nazifascismo recorreu aos aspectos de raça e nação, com forte apelo à biologização, para separar o alemão ou italiano genuínos do judeu corrupto. Mas nos neofascismos atuais a biologização dos grupos rivais pode não ser tão evidente assim, embora o racismo esteja presente, de forma mais ou menos explícita, em todos eles.
No caso brasileiro, por exemplo, a típica pessoa de bem trabalhadora tende a ser branca, em oposição ao negro, muitas vezes vinculado ao crime e à preguiça. No entanto, outros aspectos parecem ser mais evidentes na definição dos grupos dominantes, como a superioridade do homem sobre a mulher e a demonização dos LGBTs e praticantes de religiões de matriz afro-indígena, preconceitos cultivados e difundidos pelo cristianismo pentecostal. Negros e mulheres, embora em posição hierárquica inferior, têm lugar no arranjo neofascista brasileiro, desde que não se aventurem ao ativismo negro e feminista, nem ousem reivindicar o igualitarismo abstrato progressista. Se o simple fatos de ser LGBT já se configura como inaceitável para os neofascistas evangélicos, no caso dos negros e mulheres é o ativismo identitário e sua reivindicação de igualdade é são demonizado.
No aspecto produtivo, o que o neofascismo brasileiro promove e exalta, num país em acelerado processo de desindustrialização e exportador de bens primários, é a concretude da produção agrícola e mineral, cujos produtores reivindicam o direito de expandir sem qualquer limitação ecológica ou social, causando graves problemas ambientais provocados pelo crescimento das invasões de reservas ambientais, desmatamentos, queimadas e uso indiscriminado de agrotóxicos; e sociais, com a invasão de terras indígenas e quilombolas e aumento do trabalho escravo e precário.
Num país agroexportador como o Brasil, e toda a América Latina, o inimigo direto do neofascismo não são as finanças e seus capitalistas, como foi no caso alemão, em que o judeu personificou os aspectos abstratos “demoníacos” do capitalismo, expressos pelo dinheiro. O inimigo é mais difuso e se identifica menos com os liberais das finanças e mais com os progressistas e seus ideais de igualdade, que acolhem, não raro, a luta identitária e ecológica dos ativistas. Ora, o progressismo, como se viu, engendra um sujeito cidadão tão abstrato quanto o sujeito automático, cuja função é aperfeiçoar este último, corrigindo as tendências entrópicas da efetivação do liberalismo em estado puro, voltado exclusivamente para a reprodução do capital e indiferente aos perdedores do sistema.
O aspecto abstrato do capitalismo contra o qual o neofascista brasileiro se volta, não é mais o das finanças, encarnadas no judeu, em oposição à produção industrial, encarnada no alemão. No caso brasileiro, o aspecto abstrato demonizado é o da igualdade social progressista, encarnado no PT e nos petistas, principalmente os políticos, mas também nos grupos minoritários acolhidos pelas políticas progressistas, como os LGBTs, religiosos da umbanda e candomblé, feministas e ativistas negros e ecológicos. Contra estes grupos agraciados com políticas inclusivas e protetivas da cidadania abstrata, são contrapostos a produção de produtos primários e os grupos sociais definidos por comportamentos ou marcas sociais dominantes: homem, branco, hétero, cristão. Assim como os judeus, os políticos progressistas, os LGBTs e ativistas de diversos matizes são vistos pelos neofascistas como inerentemente corruptos, mentirosos e ardilosos, tanto do ponto de vista econômico (ladrões) quanto dos costumes (imorais).
Um exemplo curioso de como o fascismo amolda seu apego ao concreto de acordo com o contexto social, é que, no Brasil, os políticos petistas são percebidos como corrompidos pelo grande capital. Mas este capital corruptor não foi identificado como sendo o dos bancos, nem do agronegócio ou da mineração, e sim o das empreiteiras, um setor da economia real que representa, portanto, um aspecto concreto e moderno do capitalismo nacional. Isto apesar das inúmeras evidências de que a corrupção grassa em todos os setores do grande capital nacional, todos financiadores milionários de campanhas políticas e promotores de lobbies agressivos e pouco éticos junto à todas esfera política (e não apenas aos petistas) e à elite do funcionalismo público.
Como observa Jorge Beinstein em Neofascismo e decadência, o neofascismo atual, ao contrário do fascismo clássico da década de 1920 é difuso, dissimulado e muito mais pragmático, aceitando conviver com as formas democráticas do liberalismo, embora sabotando-as a todo momento. Até o momento os fascistas que chegaram ao poder em diversas nações do mundo não tentaram impor uma ditadura nem o extermínio de um grupo específico de pessoas, embora tais possibilidades se mantenham no horizonte de seu discurso, tão violento quanto o do fascismo clássico.
No entanto, apesar das diferenças, tanto o fascismo tradicional quanto os neofascismos atuais preservam o núcleo comum o resgate autoritário de aspectos concretos do sistema capitalista, sejam eles relativos à produção, aos costumes ou à esfera identitária. Também faz parte deste núcleo comum, a encarnação de uma masculinidade viril e saudável em alguns grupos majoritários, em oposição aos grupos discriminados, que representam sempre algum aspecto abstrato do capitalismo e que encarnam uma feminilidade ardilosa e degenerada. Outro aspecto comum é a ausência completa de projeto ou utopia, a não ser a de purgar a sociedade da corrupção e dos grupos sociais que a promovem, o que leva o sujeito paranoico a um processo da destruição pela destruição.
A virilidade adâmica do sujeito paranoico
Nos ensaios O capital é masculino e Liberais, conservadores, progressistas e ativistas, mostramos que o sujeito automático é abstratamente masculino, dotado de racionalidade e competitividade para a guerra do mercado. Para o liberalismo e progressismo, as características masculinas não são mais exclusividade do homem branco de origem europeia, mas está a disposição de qualquer indivíduo concreto que possa desenvolvê-las de acordo com a lógica abstrata do capital. Se o profissional é racional e competitivo, ao capital é indiferente seu gênero, orientação sexual, etnia, religiosidade etc. Daí a tendência dos liberais e progressistas, em geral, combaterem os vários preconceitos identitários: ambos tendem a ser liberais na esfera dos costumes.
Em contraposição à essa abstração do masculino, os conservadores insistem em reencarná-lo no homem em primeiro lugar, mas também em certos grupos sociais que seriam “dominantes” por direito, como os heterossexuais, os brancos etc. Esta posição conservadora de valorização hierárquica da concretude é inteiramente mantida pelos fascistas que, como se viu, são gestados nas hordas do conservadorismo.
Mas os conservadores afirmam a concretude de gênero e dos vários grupos sociais em contraposição às abstrações liberais e progressistas, como contrapeso à desumanização provocada pelo capital. Os fascistas, por sua vez, não negociam com sistema, e sim procuram efetivamente desestruturá-lo. A política convencional, a negociação, a polidez, o decoro público, o estado de direito, a intelectualidade, a complexidade da vida e do mundo, o cosmopolitismo, todas as práticas políticas, vivências pessoais, valores e visão de mundo liberais e progressistas, típicas das elites e classes média tradicionais, são negadas em bloco pelos fascistas e vistas como dissimulação, apego a filigranas (“frescura” ou “mimimi”) e corrupção das elites degeneradas. Contra a degeneração liberal e progressista, o sujeito paranoico fascista se apresenta como uma pessoa de bem, o homem médio puro, trabalhador, honesto, simples e autêntico, até mesmo ingênuo.
Na Alemanha nazista, o judeu era a encarnação do banqueiro, o negociador parasita, sórdido e ardiloso, em oposição ao alemão trabalhador, puro e autêntico. No Brasil atual, os políticos e alguns empresários é que se tornaram os defensores da política tradicional, cheia de negociatas e negociações, ininteligível ao “homem de bem” honesto e trabalhador que sempre acaba enganado pelos seus ardis infindáveis. Em ambos os casos, é fácil notar uma oposição entre o ardil demoníaco da mulher (projetada, ora no banqueiro judeu, ora no político tradicional) e a integridade ingênua do homem de bem trabalhador, numa revivescência do mito adâmico do paraíso perdido, que opõe a mulher ardilosa ao homem puro.
Para os liberais, progressistas e até para os conservadores, a negociação é uma virtude, tanto na política quanto na economia. Para os fascistas ela representa um vício a ser combatido, uma artimanha dos que não são autênticos e que, portanto, não têm a força e a pureza moral para se exprimirem - e se imporem - de maneira simples e direta como realmente são. Há no fascista um apego fanático à integridade, simplicidade e autenticidade do ser, que seriam típicas do homem e se expressa como virilidade e, não raro violência. Em oposição, a complexidade ardilosa e dissimulada da prática política e da visão de mundo liberal e progressista, constituem estrategemas e dissimulações típicos da mulher, que lança mão deles para compensar sua constituição inferior, marcada pela ausência da pureza simples, transparente e viril do homem.
O mesmo raciocínio em relação à negociação se aplica em relação às artes e artistas, bem como e ao pensamento e intelectuais, que constituem a cultura, uma esfera espiritual da vida moderna cara às elites e classes médias tradicionais. Estas necessitam se diferenciar das classes médias baixas e da ralé relação ao povo não apenas pela riqueza e renda, mas também pelo cultivo de faculdades estéticas e intelectuais sofisticadas e complexas, que permite ao sujeito automático o acesso à “cultura”, um aspecto da vida social secundário e separado da produção, mas que diferencia, pelo bom gosto, as sofisticadas classes altas dos trabalhadores, duplamente toscos: em seu pouco preparo técnico necessário para as atividades simples que desempenham; e em sua vida simbólica, vista como grosseira e constituída de clichês.
Além disso, a “cultura”, para as subjetividades liberais e progressistas, avessas ao conservadorismo, tem a função de compensar a desumanização abstratizante do valor com os requintes da arte e do pensamento, uma forma de enobrecer (o nobre é uma lembrança da concretude humana) as almas abstratas do sujeito automático e do sujeito cidadão. Uma tentativa que não obtém sucesso, pois ao separar (abstrair) arte e pensamento como um espaço secundário na psique e na sociedade, ambos se tornam “abstrações humanizadoras”, cujas críticas diretas ou indiretas ao modo de vida moderno praticamente não se concretizam como ação ou transformação individual ou coletiva.
Em todo caso, para os fascistas, todo este requinte estético-intelectual da elite e classe média tradicional, que é liberal e progressista, mas que também é apropriado por muitos conservadores, não passa de filigranas de uma alma degradada e feminilizada, que perdeu sua pureza e virilidade. A arte fascista deve ser realista, simples, laudatória, vigorosa e direta, ou seja, um espelho da alma do “homem de bem” trabalhador, honesto, afirmativo, puro e simples.
A contradição fascista da glorificação do trabalho
Os fascistas projetam o feminino, portanto, em quase todas as abstrações que constituem a subjetividade liberal e progressista: cidadania, estado de direito, negociação democrática, estética, pensamento etc. Quase todas, porque as duas abstrações fundamentais do capitalismo, trabalho e valor, permanecem intocadas pela “crítica” fascista. O trabalho, pelo contrário, se torna um valor positivo para homem de bem fascista que, em sua revolta inconsciente contra o capitalismo, o elogia fanaticamente, glorificando e se entregando àquilo que mais lhe oprime e desumaniza: o trabalho abstrato que exige a primazia do sujeito automático, expressão subjetiva capital e que subordina todo o psiquismo humano à lógica fria da mercadoria.
Há, portanto, uma contradição de fundo que estrutura a psique fascista do sujeito paranoico. Seu sofrimento é causado pela fúria abstratizante do capital, que esvazia a vida de todo sentido humano, empurrando para o inconsciente, tanto o sofrimento quanto sua causa, que se tornam conteúdos reprimidos que tomarão aspectos terrificantes. O aspecto central deste esvaziamento é a construção do sujeito automático, cujo objetivo primário é a produção de valor e mais valor, por meio do trabalho abstrato. Ora, o fascista preserva exatamente estas abstrações do capitalismo, principalmente o trabalho, e sua revolta irracional é direcionada contra um ou vários grupos sociais feminilizados nos quais serão projetados (encarnados) alguns aspectos abstratos do capital. Em oposição a este outro concreto, mas portador dos malefícios abstratizantes e, portanto, feminilizado, o sujeito paranoico encarna a virilidade e a pureza do “homem de bem” simples e trabalhador, que também é circunscrito em um ou vários grupos sociais concretos: homem, branco, hétero, cristão, nacional etc.
Neste processo de deslocamento e projeção num outro, o sujeito paranoico “esquece” que o homem de bem trabalhador é exatamente o sujeito automático do liberalismo, a abstração subjetiva fundamental do capital e causa primeira da desumanização da vida e do esvaziamento de sentido que tanto fazem sofrer o homem moderno. Ao glorificar e se dedicar ao trabalho, mesmo que seja o da “economia real”, industrial ou agrícola, o fascista paradoxalmente adere ao capital, objeto inconsciente de sua revolta. O resultado é que uma sociedade fascista radicaliza o apego fanático a aspectos concretos e potencializa a revolta e a vontade de destruição contra grupos que encarnam os aspectos abstratos do capital, mas ao mesmo tempo, com seu culto ao trabalho, reforça e leva ao extremo as abstrações desumanizadoras do próprio capitalismo e suas consequências danosas ao indivíduo e à coletividade.
Essa união tempestuosa entre a ideologia da “destruição pela destruição” própria do fascismo e a da “produção pela produção” do capitalismo, redunda na monstruosidade da “produção para a destruição” em que as imensas capacidades técnicas e produtivas desenvolvidas pelo capital são utilizadas agora para produzir, não mais o valor, mas a destruição pura e simples: da natureza, da coletividade, dos indivíduos, da arte, do pensamento, dos bens e do próprio valor. A produção para a violência, cujos objetivos são a própria continuação da violência, disfarçada de combate à corrupção, é a única “utopia” fascista.
O trabalho, sob o fascismo, não tem mais a finalidade da produção do valor, mas a produção da morte. Se no capitalismo a máscara psíquica do trabalho dignificação da pessoa trabalhadora, que recobre o desejo profundo do sujeito automático (do capital) de produção de valor e mais valor; no fascismo, o trabalho, embora se disfarce também com a máscara da dignificação individual, se torna, no fundo, a expressão da vontade destrutiva do reprimido, de produção da morte, que emerge na psique como sujeito paranoico cuja revolta contra o capitalismo se projeta numa cruzada irracional e sanguinária contra certos grupos sociais nos quais serão projetados vários aspectos abstratos (feminilizados) do capitalismo.
Os campos de concentração alemães são exemplos extremos do trabalho racional voltado para a morte, como o são, também, as polícias brasileiras sob as ordens de governos neofascistas em sua atuação nas periferias das grandes cidades. Mas a própria economia capitalista, que já produz destruição e morte quando voltada para a produção de valor, sob o regime fascista se torna ainda mais destrutiva, como são os casos da indústria bélica nazista, que mobilizou todo o parque industrial alemão em torno da guerra, e da agropecuária brasileira sob o governo Bolsonaro, que amplia de forma desmedida o desmatamento e as queimadas, bem como o uso indiscriminado de agrotóxicos.
A sedução do fascismo
O desejo profundo do sujeito paranoico do fascismo é a destruição de tudo e todos e, no limite, a própria autodestruição. Uma sanha aniquiladora que se justifica como purificação, como luta moralista contra a corrupção e que começa, em geral, com um ataque às instituições liberais, notadamente a política democrática. Quando o sujeito paranoico emerge na psique, ele ainda não pode mostrar sua face monstruosa, insuportável aos olhos de qualquer pessoa, inclusive de si mesmo. A luta contra a corrupção (moral e econômica) e os grupos que supostamente a encarnam se tornam, então, a máscara que disfarça o fascista de herói justiceiro, cuja violência e autoritarismo seriam necessários para combater a imoralidade ardilosa dos inimigos poderosos e purificar a sociedade. Mas a máscara de justiceiro é uma tênue camada, que mal esconde o desejo incontido de morte e destruição, e é suficiente apenas para alimentar a auto-indulgência dos que se deixaram levar pela onda fascista e não suportariam ver no espelho o rosto desnudo do sujeito paranoico que neles se encarnou. A fina máscara de herói justiceiro não convence sobretudo aos que não se deixaram seduzir pelo fascismo e que assistem horrorizados seus concidadãos, colegas, amigos e parentes serem tomados pela monstruosidade fascista.
A vulnerabilidade ao fascismo não é uma questão de cultura e educação. Embora a maior parte dos fascistas se encaixem no figurino típico do “homem médio” ou da “pessoa de bem” com poucas posses, pouca leitura e educação precária, a praga fascista, quando se propaga pelo corpo social, costuma arrebatar pessoas de todas as classes sociais e com graus variados de “refinamento” e “bom gosto”, encontrando adesão inclusive entre intelectuais e artistas que, não raro, construíram sua reputação como críticos sociais ou libertários. Há três motivos para o poder de sedução do fascismo.
O primeiro, já comentado aqui, é que o sujeito paranoico fascista se gesta no inconsciente a partir de conteúdos reprimidos pelas relações sociais abstratizantes do capital, que desumanizam as pessoas, principalmente por meio do trabalho. A transformação do ser humano em mercadoria e a subordinação das relações sociais à competição mercadológica em favor da criação da riqueza abstrata (valor/dinheiro), exigindo que as pessoa se comporte e se torne (se constitua como ser) um sujeito automático cria um enorme sofrimento humano, ao relegar todas as necessidades sociais e psíquicas realmente humanas a um segundo plano existencial. O sujeito reacionário do conservadorismo, o sujeito identitário do ativismo e o sujeito cidadão do progressismo recobrem o cerne da psique, constituído pelo sujeito automático, para para atenuar sua desumanização e proporcionar algum conforto psíquico e alguma paz social para que o capital possa continuar a se reproduzir às custas da vida humana.
Mas atenuar e compensar os efeitos nefastos do capital sobre a alma humana não significa resolvê-los. A desumanização provocada pela lógica da mercadoria e pelo trabalho abstrato, bem como o sofrimento dela decorrente continuam e, na medida em que não podem se manifestar como tais, acabam esquecidas, ou seja, empurradas para o inconsciente, onde permanecem recalcadas, até que surja a oportunidade destes conteúdos reprimidos, carregados de medo, ódio e ressentimento, emerjam na psique como sujeito paranoico. A questão é que este processo de recalque, embora seja mais visível no sujeito reacionário do conservadorismo, que está mais próximo da constituição da psique fascista, é generalizado, na medida em que todo indivíduo na cultura capitalista se constitui primariamente como sujeito automático. Portanto, a frustração e o mal estar com o capital, bem como seu recalque é universal no capitalismo. Decorre daí que, em potência, todo indivíduo da sociedade de mercado é um sujeito paranoico, ou seja, um fascista.
Por isso, quando o fascismo irrompe no tecido social, embora existam subjetividades e extratos sociais mais propensos à sua aderência (como os conservadores, as classes médias tradicionais, os homens brancos maduros e os evangélicos do Brasil atual), ele se dissemina por todo o tecido social, inclusive entre muitos progressistas, intelectuais e artistas, que estão, de fato, entre os grupos mais resistentes ao contágio fascista. A explicação para essa capilaridade do fascismo é a universalidade do recalque, ou seja, da repressão das relações concretas e dos sentidos da existência humana em favor da dominação abstrata do capital, efetuado pelo sujeito automático que age no cerne psíquico do homem moderno, desumanizando-o. A oportunidade para a emergência fascista encontra-se, portanto, latente em cada alma da sociedade da mercadoria.
O segundo motivo do poder de sedução do fascismo é que ele é uma revolta contra o status quo, ou pelo menos alguns aspectos seus, como a política democrática, os direitos humanos, o estado de direito etc. Ao acusar estas instituições liberais e seus defensores de hipócritas, mentirosos e corruptos, o fascista nada mais faz do que declarar verdades que vão de encontro à correta percepção popular sobre os arranjos institucionais da sociedade capitalista, construídos para impulsionar a reprodução do capital e que, em termos de classes sociais, beneficiam os detentores do capital e seu capatazes (políticos, classe média tradicional, alta burocracia etc), restando ao povo a distribuição das migalhas da acumulação do capital. Em momentos de crise aguda do capitalismo, alguns desses grupos tradicionalmente beneficiados pelo capitalismo são selecionados como bodes expiatórios pelos fascistas, como o judeu banqueiro na Alemanha nazista; ou os empreiteiros e os políticos progressistas e fisiológicos no Brasil atual. Ao lado desses extratos corruptos de elite, minorias sociais marginalizadas, que são vítimas contumazes do preconceito e do ódio social, também entram para o grupo dos corruptores que degradam a sociedade e, por isso, precisam ser extirpados ou controlados violentamente: os criminosos comuns, os negros, as mulheres emancipadas, os LGBTs e os praticantes de religiões afro-indígenas, no Brasil atual; os não arianos, os homossexuais e os judeus em geral, no caso da Alemanha nazista.
Na crise, os rompantes moralistas do fascismo contra estes grupos portadores da corrupção saem do seu nicho lunático e encontra eco na voz das massas desiludidas e temerosas pelo futuro. Na revolta irracional dos fascistas contra o capitalismo, os bodes expiatórios que encarnam as abstrações desumanizadoras da sociedade da mercadoria são tanto grupos sociais da elite tradicionalmente favorecidos pelo processo de acumulação capitalista, quanto minorias marginalizadas, vítimas do ódio social. Esta personalização do mal, encarnado agora em grupos concretos da sociedade, atende aos desejos de concretude fascista, além de ser eficaz como criação imaginária de inimigos mortais e demoníacos, contra os quais o “homem de bem” trabalhador não necessita controlar seus ímpetos, até então recalcados na psique, de medo, ódio e sede de destruição. Pulsões sombrias do humano, mas que, contra forças demoníacas são justificáveis e até desejáveis. Essa demonização têm evidentes características místico-religiosas, que projetam o mal em determinados grupos sociais. Não à toa, os conservadores e os cristãos costumam estar entre os apoiadores de primeira hora do fascismo, constituindo uma firme base de apoio a durante a onda fascista.
Lutar contra o mal, encarnado em demônios terrenos, é excitante e enobrecedor. Por isso, ao emergir na psique, o sujeito paranoico do fascismo é contagiante, pois encontra-se na situação do herói, numa luta desigual contra um inimigo malvado e praticamente invencível. O sujeito paranoico é dinâmico, altissonante, desafiador e compensa a irracionalidade perversa de suas ideias e ações com uma excitação extrema e um empenho quase sobre-humano em torno de uma causa que é a de todos: o combate à corrupção econômica, política e moral da sociedade. O fascismo é o filho degenerado do romantismo. O fascista toma do romântico e sua luta inglória contra o sistema, o elã do iluminado rebelde que sempre seduziu o homem moderno, frustrado em sua humanidade pelas abstrações vazias de sentido do capitalismo: trabalho, tempo abstrato, valor, sujeito automático etc.
Não é por acaso que tantos bons artistas e intelectuais acabam por aderir ao fascismo. Pelo menos de início, os fascistas podem dar a impressão de estarem do lado certo da luta. A irrupção do sujeito paranoico na psique coletiva carrega, de fato, a potência passional das rupturas revolucionárias que sacodem a sociedade de forma definitiva: nada mais será como antes depois da cruzada contra a corrupção e o resgate da concretude humana prometida pelo fascismo. Mas uma observação apenas um pouco mais atenta e menos apaixonada do fenômeno fascista mostraria a face terrível da loucura do sujeito paranoico, cujo ardor “revolucionário” e as “boas intenções” purificadoras da sociedade, no fundo, deseja apenas a destruição pela destruição, distopia em nada semelhante à loucura utópica ou mesmo reacionária evocada pelos românticos de diversos matizes. Por mais que o fascismo lembre uma revolução romântica, é imperdoável que intelectuais e artistas, mesmo os de tendência liberal ou conservadora, militem ou mesmo simpatizem com sua demência moralista e sanguinária: mais do que ninguém, eles têm o aparato simbólico necessário para saber com o que estão lidando.
Terceiro, ao explodir como uma revolta “romântica” contra o status quo, o fascismo parece, em seus momentos iniciais, uma explosão de liberdade. A irrupção do sujeito paranoico na psique, dá ao indivíduo a impressão de libertação amarras sociais, tanto no plano simbólico das ideias e linguagem, quanto na esfera da ação prática. O fato das instituições, convenções sociais e bons modos liberais, mantidas por conservadores e progressistas, estarem eivadas de hipocrisia e recobrirem com a máscara da civilização uma ordem social violenta e injusta, é explorado pelo fascismo, cujos membros se veem desobrigados, pelo menos na aparência, de prestarem contas às etiquetas sociais da civilização burguesa. Esta espontaneidade da linguagem e da ação reforça a autoimagem de pureza adâmica e espontaneidade do indivíduo fascista e costuma atrair para o movimento indivíduos e grupos sociais que se organizam em torno do discurso da liberdade, como muitos liberais, artistas e intelectuais.
Na verdade, esta libertação do status quo não ocorre em direção a uma sociedade mais libertária, como os fascistas querem acreditar ou, pelo menos, fazer os outros acreditarem. Ela ocorre para dar vazão ao desejo de destruição e para liberar a opressão e a violência contra as minorias demonizadas e, no caso da Alemanha nazista, para iniciativa da guerra contra o inimigo externo. Atualmente, o alívio que o sujeito paranoico sente ao poder utilizar, por exemplo, uma linguagem “politicamente incorreta” sem que tenha de se policiar diante de seus comparsas e da sociedade em geral, mal recobre o medo e o ódio que ele nutre pelos grupos minoritários. Se o “politicamente correto” se trata, realmente, de uma grande hipocrisia liberal e progressista, os fascistas não a criticam para repará-la nem resgatar as minorias marginalizadas, mas simplesmente para fazer valer o seu “direito” de exercer o preconceito e a opressão sobre os grupos discriminados, explicitando e afirmando a marginalização social que a hipocrisia linguística tentava recobrir. A liberdade fascista se mostra, então, como uma falsa liberdade, que liberta apenas a violência totalitária, o direito irrestrito da maioria oprimir as minorias e destruir o tecido social. Trata-se, na esfera psíquica, da liberação explosiva do medo, do ódio e do ressentimento recalcados como conteúdos reprimidos do sujeito automático, e que se efetiva na esfera social livre exercício da barbárie.
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