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O engenheiro onírico

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Quando eu era menino, adorava brincar de carrinho.  Então, construía estradas, pontes, estacionamentos, postos,  calçadas e ruas, tudo muito rudimentar, a imaginação é que sofisticava a obra.  No meu sonho de olhos abertos  aquele pequeno e tosco universo ganhava detalhes, se movia, funcionava  que nem uma cidade, melhor ainda,  uma ultracidade cheia de Graça e Vida.  Eram horas e horas absorto no parto  de um mundo que se fazia  com a terra vermelha do quintal  e o cimento da fantasia.  Depois que tudo estava pronto,  finalmente chegara o grande momento  de brincar de carrinho, de imitar os adultos  na faina diária, brincar de viver, de ser  gente grande de verdade!  Mas como era chato! Não havia mais nada  para se construir no chão do quintal  nem nas nuvens da minha cabeça, avoada desde aquele tempo.  Eu nunca gostei de brincar de carrinho,  eu queria mesmo era construir caminhos,  estradas de terra  para longe daqui, estradas de sonho para o sem fim de mim. (Mas eu queria muito gos

Serei-as?

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Ao som de Céu, Carne Doce e Maria Beraldo elas muitas seus corpos um canto do cosmo onde o cosmo se con- centra   eros & afrodite corpo & boca alma & vulva pele & mente língua & dentes tudo tanto tenso tão in - tenso cavalas felinas ser- peiam perversas derramam-se em palavras nuas suas línguas-lâminas cortam-me os nervos d'alma salivam em mim seu beijo-veneno desejo (fêmeo) de uma vida inteira numa linha de  Voz Vênus de Milo com gavetas - Salvador Dalí

Instant star (Pós II)

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In stável, sou estar eterno... eterno brilho fugaz,   pó sidéreo, eter namente pós- moderno.  

letra morta

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Wilton Cardoso · letra morta.ogg só os poetas (ou as pirantes a) leem poesia   poeta só prestarás (se prestares) depois de bem velho ou bem morto (quase) ninguém lerá teu verso torto tantos desejos tontos   ah! vida perdida em letras suicidas  

Furdunço

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Os alvos fidalgos na sala Brindam aos deuses da fortuna   E ralham soberbos co'os bárbaros, Tosco gentio de fea figura, Alma escura e estirpe mui pobre, A amassar o pão na cozinha, A labutar até o bagaço E a grunhir, vã revolta, aos nobres, Reza braba, praga e resmungo. E enquanto rinham, cai a casa Na cabeça de todo mundo.   Sem título - Zdzislaw Beksinski

Um saber infernal

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O caminhar sombrio daquele que carrega dentro de si o inferno,   em meio ao inferno  das ruas sujas de medo, miséria, ódio e rancor.   Sua alma queima de frio... Pelo escuro possuído e envolto pelo escuro, só    o sóbrio saber das sombras risca uma fresta de céu (sol) na couraça dos dois infernos   carentes do calor do amor e da luz do sentido.    

Pós

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Wilton Cardoso · pos2.ogg Eu  Não estou pós-moderno, Eu sou pós-moderno, Completamente abduzido, ab- Sorvido no entretenimento fútil da vida contemporânea, Não tenho paciência para a declamação do poema, Nem mesmo na voz irônica do Abujamra. Não sou mais irônico nem fragmentado, Sou cínico, A fragmentação em Pessoa, Quebra essencial, Caco de um vaso que não houve, Não tenho paciência de atravessar romances, Quero apenas ficção científica nas telas. Apocalipse zumbi, Se o capitalismo é um beco sem saída Suicida, Que o mundo acabe então  Pela mão invisível do Deus, Cansei de imaginar utopias, buscar outras vidas, Meu bem, Enquanto o mundo não acaba Vamos gastar, beber, dançar como loucos à beira do abismo. Não tenho paciência para um vinil, Eu quero três minutos de música ou menos, Aquele pedaço viciante da canção, Alívio imediato, a cena de impacto, Pensar apenas no próximo Negócio, festa, viagem, transe ou transa. Viver sou eu Gozar agora e esquecer Ontem, amanhã, os outros, o mundo

Narciso (mise en abyme)

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viv eu ou si perd eu em sonhos acor dados em des acordo com a v ida con creta ícaro em fuga aluci nada em que da livr e se des pedaç ando no abis into voo látil de um sí sifo in saci áve l  

há galáxias

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a poesia se perdeu o poeta não existiu ninguém leu há galáxias inscritas no vazio a brilhar no céu   a poesia se perdeu o poema não existiu ninguém leu há galáxias perdidas no vazio a brilhar no céu

Efemérides

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o choque de bilhões de sóis       e anos-luz       de duas galáxias remotas a batalha das migalhas        das baratas na cozinha a odisseia existencial do artista a luta cotidiana as pessoas comuns a curva da vida o caminho místico do herói os podres de ricos os pobres diabos os remediados todo mundo é um herói cada ser sua épica cada ente um universo cada rês o Umbigo do mundo   e o cosmo desumbigado esparramado no éter engole as reses todas em sua bocarra       de eras e alqueires sem fim como a baleia azul aspira o plâncton sem saber dos risos e calos de cada bicho do belo Umbigo de cada bicho sem saber     nem mesmo     de sua potência infinita de cosmo a engolir os ínfimos ciscos      efêmeros      que somos nós

Filosofias do hippie veio

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Eu conheci um velho vagabundo que andava por aí sem querer parar. Quando parava, ele dizia a todos que o seu coração ainda rolava pelo mundo.  (Sá, Rodrix e Guarabyra) Quem diz que gosta de trabalhar:  Tá mentindo pra fazer bonito, tá mentindo pra ele mesmo ou é desinquieto de natureza e trampa pra aliviar.  De todo jeito tá doente bicho, fudidão, dodói demais da cabeça, fatigado do corpo e desinfeliz do coração, coitado. *** Eu num tenho pressa de chegar.  Nem hora de chegar.  Num tenho nem aonde chegar.  Na real bicho, eu nem sei o que é chegar! *** Que hora é agora? Ué! Hora de descansar *** Onde eu moro?  Em riba das butina. *** De bicho eu gosto é do gato, bicho.  Aí, toda hora é hora do bichano puxar uma palha. *** Duas coisa que me tira do sério:  trabalhar em casa e trabalhar fora de casa. *** O que que eu quero pra vida daqui 10 anos?  Bicho, num sei nem onde eu vou tá daqui 10 dias! *** Eu sou é rico demais. Tenho toda estrada do mundo.  Quer mais? Todo tempo, todo vento, t

Xepa geral

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O mundo em clima de xepa De feira fim de festa Tempestades de raiva No calor infernal das cidades O mundo que resta é rio quebradiço Sem fonte ou sentido de mar Marquises desabam Nas calçadas da feira Nas cabeças que passam Uma leve lembrança Um paraíso esquecido um sabor de niilismo Na maçã do rancor Caída Entre barracas e moscas Rolando lambuzada Num apocalipse de piche Xepa do mundo fim de feira Reses caídas Nas grotas de algoritmos Ao ritmo das vitrines Reses perdidas No labirinto de espelhos das trocas De olhares moedas e modas Narciso surdo narciso Narciso surdo e cego Narciso despenca um mundo De água e você vidrado No espelho quebrado da fonte Que não existe mais Ou houve somente em eco? Fonte arrastada no enxurro Da xepa das feiras de tudo

Clozapina política

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As tripas fascistas

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Wilton Cardoso · as tripas fascistas 2.ogg   ironia escatológica de uma obstrução intestinal não desejo o seu fim afogado na merda que você sobreviva e apodreça na cela não desejo o seu fim afogado na merda mas não vou lamentar se for sua hora em todo caso afogado na merda há de ser o seu fim seja a hora que for pois seu dentro é puro intestino e cocô e em sua merda de vida você só faz merda                                   seu Merda                                                         Genocida!

Os desaparecidos

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Não derramemos falsas lágrimas pela primeira vez que desapareceram no frio espiritual da cidade para perambularem invisíveis por ruas e praças. Nem choremos agora seu segundo desaparecimento, quando o frio da madrugada petrificou-lhes os corpos supérfluos. Não caiam de nós lágrimas hipócritas pelos caídos da urbe, bagaço há muito esquecido. Choremos por nós, os bem nascidos e criados para a dignidade cidadã de funcionar como narcisos frios consumidos por balcões e vitrines, corpos dentados hábeis e adaptáveis às funções que nos honram, mecânicas almas vivas(?) esquecidas da dor do desaparecimento dos desamparados, peças impassíveis da máquina abstrata de cifras que mastiga suores e cospe um bagaço de corpos invisíveis. Choremos por nós, úteis e visíveis (e visíveis porque úteis), incapazes de nos compadecermos pelos desaparecidos que definham incógnitos nos labirintos das cidades. Choremos por nós, desaparecidos de nós mesmos nos labirintos da utilidade.

o segundo desaparecimento

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morreram de hipotermia na madrugada fria do pais tropical mas existiam? quem os via  nas vias viadutos e calçadas? quem deu falta do que não havia?   Mendicantes do parque (Iberê Camargo)

por um delírio

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a vida atravessou-me a pele o corpo estava no mundo mas eu não a musica triste e alegre irradia uma canção que fui e não existo mais pedra no meio do destino sina à margem da vida menino sem tino só (o) sabe esse grito silêncio feito de imagens nas águas salgadas da página suspiros e mágoas em falso menino fausto um'alma por um delírio  

lá entre nós

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como ser louco dentro se dentro está vazio cheio somente de contas bolsos e cifras no cio? ah! mas há um outro dentro dentro do dentro (ou ao lado sabe-se lá) uma sombra cheia de monstros que volta e assombra o centro e arromba as portas do mundo o poeta é um louco                                    agora                                               da boca                                                             pra fora

cá entre nós

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Decalcomania - René Magritte os poetas são pessoas normais carro cachorro supermercado bom dia tudo bem como vai só uns poucos centímetros fora do centro sensível alma que- brada demais o poeta é só                  um desses              loucos        para dentro

Capitalismo e (não) sentido

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Vazio pós-moderno O vazio psíquico pós-moderno, a sensação de que a vida que se vive não tem sentido humano, nada mais é que a plenitude do Capital, da alma adestrada como sujeito automático, voltada primariamente para a produção de valor. O vazio humano da pós-modernidade é a realização plena do Capital. Certamente não há sentido no universo e a Terra é um escuro cisco esférico perdido em meio a bilhões de galáxias. Não há, tampouco sentido no interior deste pequeno cisco em que vivemos. A Natureza por acaso nos gerou e nos desconhece completamente. Mas o ser humano é um ser de sentido. A consciência é um animal à caça de sentidos e, ao mesmo tempo, uma fábrica de significação. As pessoas inventaram os deuses para preencher o mundo de sentido, para fazer sua existência ser mais que um simples existir casual. O capital talvez seja o primeiro Deus criado pelos homens que esvazia o mundo de sentido e converte homens e natureza em instrumentos para reproduzir sua forma quantitativa e abst