22 março, 2024

Gaza - Palestina

o horror     o horror   ó Palestina
     a mãe procura os cadáveres
dos filhos sob os escombros    o choro 
         da menina de pele queimada
  a morte ao vivo     nas telas da internet
     o horror que se repete e se repete
e se repete 

    armênios   Gueto de Varsóvia    Auschwitz
os genocídios    de russos e chineses   
      Vietnã    Camboja    Iraque   Sudão   
  Líbia   Síria   Iêmen    tantos outros
novo milênio    século XX    Modernidade
        tantos indígenas   africanos   orientais  
              ó Palestina
sois todos eles agora
       sois a síntese
                de todos massacres
                         condensados 
          no circo de horrores de Gaza

não entra comida ou remédio    só o ódio 
      irremediável dos soldados
                    e a chuva de bombas 
sobre casas e escolas     hospitais e mesquitas
      não há refúgio ou descanso em Gaza
           onde as pessoas morrem agora
                de morte matada
                       por bomba ou bala
ou se assassina em massa 
     com as bombas sujas da peste
              e da fome

soldados sorridentes tiram selfies  
       em meio às ruínas de Gaza
   em meio às roupas das mulheres de Gaza
trofeus da caça abatida
         os civilizados bebem o sangue
   dos animais árabes      bárbaros inumanos  
       a mesma história de sempre    a mesma 
 ladainha    a mesma cantilena     o mesmo
           banho de sangue repetido ad nauseam

ó martírio que não tem fim   ó Palestina
    microcosmo do horror 
                de todas as terras bárbaras
          disciplinadas 
                    pela Razão ocidental
    Gaza afogada num Mar Morto de ódio   
       num Mar Vermelho do sangue
dos filhos e filhas da Palestina  
          o mesmo mar de sangue
     de todos os outros
povos bárbaros    um oceano rubro de séculos
                          e séculos da pedagogia 
                    civilizatória dos canhões 

ó Palestina    amarga ironia
vosso povo desterrado
em sua própria terra
pelos filhos da Diáspora

ó Palestina    amarga ironia
sofreis a carnificina
pelas mãos impiedosas
dos filhos do Holocausto

12 março, 2024

Nada com nada

Compor canções edificantes
ou terrificantes,
edificações exímias sobre
o Nada
que é a vida,
formas perfeitas
com a carne das palavras
e a alma do artista.
Voz séria, ébria ou irônica
a ritmar sem fim...

Não,
hoje eu quero ir ao dentista
e errar depois pelo Centro 
esquecido de Goiânia,
com suas praças e vielas
que escondem calçadas quebradas,
frestas
de onde brotam capim
e casinhas art déco.

Hoje
eu não quero alçar a Voz aos abismos
nem às alturas do Nada
ou do Ser,
quero ser o corpo que sou,
pó sem voo, mero cisco
no chão de asfalto e cimento.
Nenhum regozijo,
sequer um lamento.

Hoje eu não quero nada
com nada.

11 março, 2024

sol alto

uma língua de silêncio
cintila
no mar de ruídos da avenida

um mar largo de ruas
e ruínas
tragados na voz muda

ó canto que não canta
no asfalto
nasce o poema: sol alto 





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O engenheiro onírico

Quando eu era menino, adorava brincar de carrinho.  Então, construía estradas, pontes, estacionamentos, postos,  calçadas e ruas, tudo muito...