sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Marx antropólogo

Dependendo da perspectiva, Marx pode ser considerado economista, sociólogo ou filósofo.

Recentemente, a crítica do valor, cujos principais teóricos são Moishe Postone e Robert Kurtz, redescobriram um outro Marx e, consequentemente, um outro marxismo, próximos da antropologia.

Um conceito chave da antropologia é o de cultura, que se refere, entre outras coisas, à identidade de um povo e, consequentemente, à diferença entre ele e os outros povos.

O reconhecimento da diferença irredutível entre os povos é um mérito da antropologia. Esta irredutibilidade implica na impossibilidade de se medir um povo pela régua cultural de outro povo. Quando uma cultura tenta entender a outra, a partir de suas ideias, crenças e valores, inevitavelmente haverá uma distorção que resulta, quase sempre, na visão do outro como indesejável ou inferior.

É o que aconteceu com o Ocidente no séc. XIX, quando os primeiros antropólogos modernos, ao tentar interpretar as culturas dos povos não ocidentais, taxou-os de primitivos. Povos tribais de vários continentes e até povos imperiais, como Indianos, Japoneses e Chineses, seriam inferiores aos povos ocidentais, numa suposta escala evolutiva cultural. É o que conhecemos hoje como etnocentrismo ocidental.

O que Marx e seus escritos tem a ver com tudo isto?

A leitura que a crítica do valor  faz de Marx, ao contrário do marxismo tradicional, não considera que a lógica dialética (ou qualquer outra) seja aplicável a toda história humana. Apenas o capitalismo se desenvolve dialeticamente. Aliás, apenas o capitalismo tem uma lógica totalizante de evolução histórica, o que o caracteriza como uma cultura previsível em seu desenvolvimento histórico. A sociedade capitalista (a modernidade) é dirigida ferreamente pelas leis do capital, que são dialéticas, progressivas e totalizantes, além de inconscientes, pois não dependem das vontades de grupos e indivíduos, atuando "por trás" de suas vontades.

As outras culturas e suas histórias, embora marcadas também por simbolismos inconscientes, não são guiadas por uma férrea "lei social" como a do capital. Por isto, a sua história é muito menos previsível e progressiva que a modernidade.

Para Moishe Postone e Robert Kurtz a insistência em aplicar conceitos como trabalho, mercado, economia e comércio em outras culturas, não passam de projeções de nossas categorias a povos que nada tem a ver com elas. Da mesma forma, quando se tenta encontrar regras totalizantes que determinam a evolução de uma dada cultura ou mesmo de toda a humanidade, o que se faz é  projetar as "leis" de desenvolvimento da sociedade capitalista (progressiva e totalizante) a povos cuja história se desenrola sem as coerções da "lei social" do capital.

Outro ponto que distancia o marxismo tradicional dos teóricos da crítica do valor é que estes consideram as categorias básicas que Marx utiliza para definir o capitalismo (trabalho, valor, mercadoria e capital) como formas sociais fundantes. Para os críticos do valor, estas formas sociais são, ao mesmo tempo, constituídas por e constituintes das relações sociais no capitalismo.

É a partir das formas sociais que a lógica dialética do capital irá se desenvolver e moldar todo o sistema, desde sua economia, passando por suas instituições políticas, até a subjetividade dos indivíduos. O materialismo marxista, tão prezado pelo marxismo tradicional, é substituído pelos arranjos simbólicos das formas sociais, que se transformam no cerne cultural do "povo' capitalista, ou seja, do homem moderno. (A palavra homem cai bem aqui, pois a perspectiva capitalista do mundo é masculina, construída culturalmente como competitiva e racional, em oposição à mulher, solidária e emotiva. A concorrência impiedosa e dominação "racional" e irrefreada do mundo são as manifestações desta subjetividade masculina que, em última análise é próprio capital  (sujeito automático) agindo "por trás" das pessoas.)

Para a crítica do valor, assim como para a antropologia, não é a evolução material das técnicas e ferramentas (forças produtivas) que determinam o desenvolvimento do mundo simbólico constituído pelas formas sociais. Antes, é a maneira como as formas sociais (o simbólico) organizam o desenvolvimento das técnicas e ferramentas que determinam a identidade de um povo e, em consequência, a diferença para com os outros povos.

A especificidade do Marxismo, se o virmos como uma antropologia, é que se trata do estudo da identidade de um único povo: a sociedade moderna. Trata-se de uma antropologia, ao mesmo tempo limitada e global. Limitada por se restringir à sociedade capitalista que remonta a, no máximo, 500 anos da história humana e que, caso Marx esteja certo (e a empiria tem confirmado as suas previsões) não tem muito tempo de vida. O dia em que o capitalismo acabar o marxismo também acaba, pois sua única missão é perseguir criticamente o desenvolvimento capitalista, de seu nascimento à sua morte, como uma sombra inconveniente.

Mas o marxismo se tornou global à medida que seu objeto de estudo, o capitalismo, se expandiu por toda a Terra, eliminando as outras culturas. Hoje, praticamente todos os povos da terra foram absorvidos pelas formas sociais capitalistas, restando quase nada das abissais diferenças entre os povos pré-capitalistas, pois uma das consequências da lógica totalizante do capital é a padronização progressiva de todas as sociedades, tornando-as uma mesma cultura.

O marxismo se torna global também porque se expandiu a todas as esferas da vida, impregnando praticamente toda a atividade humana com suas leis e valores. Do mercado, passando pela política, pelos lares, até chegar ao íntimo da subjetividade e às fugas da arte, o capital impõe suas categorias, leis e perspectivas, deixando pouco espaço para o desenvolvimento de uma alteridade que o questione.

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