quinta-feira, 21 de junho de 2018

a vida é uma coisa frágil
e brota por todas as frestas
a vida é uma grande festa
e velório no mesmo salão

terça-feira, 19 de junho de 2018

O totalitarismo espiritual do capital

Por Franco Átila

A necessidade de chamar atenção pelas redes sociais é uma constante no mundo pós-moderno. Por que este desejo doentio de ser visto e supostamente admirado? Supostamente, pois a fama pós-moderna não é resultado do reconhecimento coletivo de algum talento pessoal. Ela é medida apenas pelo volume de atenção pública recebida por uma ação ou característica individual.

Na era do capital total, as pessoas se desumanizam num narcisismo infantilóide, cuja sustentação única é a medida quantitativa da audiência. Eventualmente, o narcisista pode até ganhar dinheiro com sua vaidade vazia, mas o importante é que este mecanismo de aferir a alma da pessoa pela audiência (quantidade abstrata) é análogo ao de aferir a riqueza (pessoal, empresarial ou nacional) com a quantidade de  capital acumulado, ou seja, como riqueza abstrata - e desumana.

A alma das pessoas se constitui, agora, por grandezas abstratas e categorias formais, destituídas de sentido: renda, fama, produtividade, notas escolares, relógio, direito, democracia etc. Estamos, pela primeira vez na história, diante de um monoteísmo que conquistou, de fato, todas as almas do planeta, e cada palmo da alma. E esse Deus - único e verdadeiro - não é o Cristo, e sim Mamon.

No reino de Mamon, o que era humano se degrada no inumano das abstrações formais. Tudo é valor.

sábado, 16 de junho de 2018

Escravidão evangélica e dominação abstrata

Por Franco Átila

O evangélico (uma versão brasileira do protestante), como toda boa ovelha cristã, deve amoldar seu espírito à ordem social vigente. Max Weber já observou como o espírito protestante (disciplinado, trabalhador e ascético) se conforma bem à racionalidade burguesa, em contraste com o catolicismo, cuja função era moldar o espírito para a cosmovisão feudal do medievo.

Se o catolicismo sempre foi estranho ao capitalismo (não foi coincidência que a rebeldia religiosa mais contundente contra o capital, a Teologia da Libertação, tenha nascido no seio do catolicismo), o protestantismo e seu descendente latino-americano, o pentecostalismo evangélico, têm exatamente a função de moldar/escravizar o espírito à sociedade capitalista.

Trata-se portanto de fazer o espírito se curvar à dominação social exercida no interior de outra cultura, a moderna, moldada desde as entranhas pelo capital. Há algo extraordinário nesta dominação, que nenhuma outra cultura, nem as primitivas, nem as civilizadas, jamais experimentaram. É que no capitalismo, pela primeira vez na história da humanidade, a relação de poder fundamental não se circunscreve nos limites do humano, não se trata do domínio social de um grupo humano sobre o outro.

O marxismo tradicional até pode contestar tal afirmação, pois vê na exploração da classe trabalhadora pela burguesia, a dominação fundamental do capitalismo. Não se pode negar que nas sociedades capitalistas sempre há uma pequena elite que explora uma grande massa de trabalhadores e excluídos. Mas esta dominação, no capitalismo, embora seja importante, é secundária e não principal. Ela não define a sociedade capitalista e o homem moderno como uma cultura e subjetividade singulares, radicalmente diferentes das anteriores.

Mais que isso, a dominação exercida sobre os trabalhadores pela elite burguesa se dá por procuração, em nome do verdadeiro poder de mando no capitalismo, que é o valor (dinheiro). A elite, embora se beneficie da exploração do trabalho, não age por interesse próprio, mas sob as coerções da concorrência e do lucro, impostas pela lógica de valorização do capital. A elite capitalista age como capataz do valor.

A dominação principal do capitalismo, então, é aquela que o valor (de troca, o dinheiro) exerce sobre as pessoas, sejam elas de que classe forem. Esse foi o grande achado do Marx antropólogo, que conseguiu ver a singularidade da alma capitalista em contraste com todas as culturas anteriores à modernidade. Mas o que é o valor? Que poder é este que faz curvar diante de seu poder, não apenas o povo, mas também as elites burguesas? De acordo com Marx, é uma quantidade abstrata de tempo de trabalho necessária para produzir uma mercadoria.

A vida humana, no capitalismo, gira em torno dessa unidade mágica e abstrata chamada valor, uma quantidade abstrata de tempo de trabalho, que circula e se acumula sob o nome de capital. Por se tratar de uma quantidade abstrata, o valor (e o capital) é, por natureza, vazio de conteúdo, tratando-se de uma espécie de forma pura, uma abstração vazia mas real e atuante socialmente, pois é o valor e suas leis (mais valia, concorrência, acumulação) que dirigem a vida social no capitalismo.

Valor, trabalho, mercadoria e capital são as categorias básicas e interdependentes em torno das quais a vida gira no regime capitalista. O trabalho é a substância do valor, pois na definição de valor, este se constitui exatamente como tempo de trabalho. A mercadoria é a encarnação do valor (como trabalho passado) numa coisa material (bens) ou imaterial (serviços). O capital é o próprio valor que se valoriza, ou seja, é valor em movimento.

A novidade dessa dominação é que ela não se exerce diretamente, a partir de um grupo humano sobre o outro, mas por meio do trabalho. É pela via indireta do trabalho remunerado (que já é valor) que a burguesia explora o operariado e por meio da mais valia (lucro) acumula capital. Mas a questão no capitalismo é que o meio (valor/trabalho) de dominação acaba por se tornar um fim em si mesmo e passa a dominar a todos, independente do grupo social a que se pertença.

É esta dominação que o evangélico têm que aceitar, moldando seu espírito de acordo com o mundo do valor/trabalho. Mas se o valor é uma entidade abstrata e vazia de conteúdo, que outro espírito ele não poderia gerar, senão um também vazio e abstrato? Pois assim é o sujeito moderno, puramente formal e abstrato, destituído de conteúdo. O sujeito do direito e da democracia representativa é a expressão explícita desta subjetividade formal. Este sujeito moderno se crê livre mas é controlado, sem o saber, pelo sujeito automático, que é o próprio capital.

O problema é que este sujeito abstrato do valor/trabalho, destituído de consciência e dotado de uma racionalidade meramente instrumental, é fundamentalmente desumano, o que causa um terrível desconforto psíquico no homem moderno, que sente todos os conteúdos potenciais de sua humanidade se esvaírem pelo ralo da abstração cega do capital.

A tarefa do cristianismo evangélico (e protestante) é moldar o espírito a esta dominação abstrata e desumana do capital, e fazer crer que, no Cristo, há ainda algum conteúdo humano que possa ser recuperado pelo homem moderno. Mas o verdadeiro e único Cristo do capitalismo é Mamon. É à Mamom, o Deus vazio, cego e abstrato do capitalismo, que a igreja evangélica faz dobrar o espírito de seus fiéis, na pior escravidão espiritual que já existiu na face da terra.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A praga evangélica

Por Franco Átila

Em última análise, todo ser humano, sob o capitalismo atual é evangélico-protestante nas profundezas de seu espírito, mesmo que se declare católico, pagão ou ateu. Se a pessoa se converte ao cristianismo evangélico, como tantos estão a fazer no Brasil atual, ela está apenas explicitando o Deus que já habita as entranhas de sua alma e se encontrava em estado de latência. E este Deus só é o Cristo em aparência.

O ética do trabalho do homem-mercadoria, o ganhar e gastar do homem reto (a pessoa de bem), a disciplina para o estudo e a poupança (o próprio estudo é uma acumulação de capital humano para o futuro), a racionalidade instrumental, a subjetividade abstrata e puramente formal desdobrada no direito e na democracia, todos estes valores democráticos se coadunam com uma vida humana entregue ao capital, dedicada ao único e verdadeiro Deus protestante: Mamon.

E o homem protestante ideal, por sua vez, é idêntico ao homem classe média, outrora chamado pequeno burguês, esta subjetividade vazia, fragmentada e abstrata que realiza o sujeito automático do capital de forma quase perfeita.

Se o capitalista foi chamado por Marx de representante do capital, utilizado por este último como instrumento para a exploração do operariado (os fodidos pelo capital), o homem de classe média é a encarnação do capital no humano: é o capital como sujeito automático tornado humano, espírito santo de Mamon impregnando o primata homo sapiens para transmutá-lo em homo economicus.

No capitalismo atual, a grande maioria de humanos miseráveis que habita o planeta tem um único e obsessivo objetivo: tornar-se homem de classe média. Em verdade, já o são em espírito, pois procuram se educar a si e aos seus para a cidadania e o mercado e se aferram ao rígido ascetismo protestante da disciplina para o trabalho e o mercado.  Falta a esta maioria miserável, apenas a bênção de Mamom, tocando suas almas com o milagre da prosperidade e tornando-as ricas em valor (financeiramente). E continuará faltando, pois a bênção do “fazer pé de meia” será dada a cada vez menos pessoas no capitalismo global.

E para quê existe o homem classe média se não para se doar inteiro para o capital? Inclusive em seu tempo livre de trabalho, ele se entrega, como consumidor, à indústria do entretenimento. Nem mesmo a arte o salva de Mamom, pois sua tendência é consumir massivamente uma arte pop acrítica e superficial, desenvolvida inteiramente sob as leis mercantis de Mamon.

O homem ideal do capitalismo total da atualidade é o homem classe média, idêntico ao cristão protestante/evangélico. A praga evangélica é bem mais geral e profunda do que se pensa, no Brasil e fora dele.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

encruzilhada

era claro baixo barbado
pés no chão sujo esfarrapado
podia ter a idade de cristo
pedia moedas
bêbado
pros motoristas parados no sinal

dia desses
enquanto cambaleava entre os carros
apertava uma narina com o polegar
e escarrava com força pela outra
uma gosma grossa esverdeada
tossia catarro
cuspia
praguejava impropérios contra a praga
sai de mim coisa ruim

os motoristas não o viram mais
nem deram falta

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O Messias

Um ódio se gesta de longa data (anos, décadas, séculos) no útero podre de certas massas claras e esclarecidas: batinas, ternos, togas e fardas.

Um ódio vem à luz num momento de brecha, a ocasião faz o parto, o ódio dentro já está feito.

Um ódio cresce e se espalha, câncer, vírus, capim, pasto de bois de todas as raças. O ódio já não é só branco e instruído, é negro e também pobre e cristão. O ódio ama as pessoas de bem e combate a corrupção.

O ódio quer um inimigo para ferrar-lhe a fogo a marca do corrompido, para regozijar-se com sua dor, prisão e humilhação. O ódio festeja a morte, o ódio deseja o ódio, o ódio quer ser mais ódio, até o puro ódio, até não restar vestígio do inimigo: corpo, alma, lembrança.

Enquanto ataca e destrói, o ódio corrói
dentro (sem ser visto)
a alma do que odeia,
até não restar nada
de nada,

nirvana do fascismo.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O marxismo não é uma teoria econômica

Por Franco Átila

É um engano achar que as categorias marxistas fundamentais, valor, mercadoria, trabalho e capital, são estritamente econômicas. Estes conceitos visam explicar não só a economia capitalista, mas o principalmente as “maneiras de ser” do homem na sociedade capitalista. Por isto os críticos do valor as denominam “formas sociais”, pois elas dizem respeito à cultura, no sentido antropológico do termo.

Valor, trabalho,mercadoria e capital formam o chão social no qual nasce e cresce o homo economicus ou homem moderno, o ser humano típico da sociedade capitalista global. Estas categorias precedem e condicionam os valores e a visão de mundo do homem moderno. Se elas são categorias imediatamente econômicas, não é porque o marxismo privilegia a economia em detrimento das outras esferas da vida humana. É o capitalismo que transforma os objetos, a natureza e as pessoas em coisas econômicas, instrumentais, mensuráveis e homogêneas, cuja medida última é o capital.

terça-feira, 27 de março de 2018

nuvens-chumbo 3

símio à solta
os mais baixos instintos
o espírito linchador
baixa nas massas

os vencedores e perdedores da meritocracia cristã
ondas de medo frustração raiva e ressentimento
hordas brancas gozam em delírio
o espetáculo do circo de horrores

a paz policial
as togas fascistas
o prende e humilha da mídia
a convulsão moralista do pastor
o rebanho fanático tangido ao abismo

bíblias cospem balas
deus é amor

quarta-feira, 21 de março de 2018

Nobre & vagabundos: A aliança secreta dos escravos

Por Franco Átila

O capitalismo oscila entre o capital e o trabalho (burguesia e operariado), polos opostos de um mesmo sistema social e psíquico. O trabalho é a substância do valor. A opressão capitalista não é a do capital contra o trabalho, mas se exerce por meio do trabalho. O trabalho não é libertador e sim opressor. Neste ponto, finalmente o novo marxismo da crítica do valor concorda com os artistas e sua revolta contra a instrumentalização do homem provocada pelo trabalho. Este não dignifica ninguém, e sim coisifica as pessoas.

No capitalismo, o trabalho é uma mercadoria. É também a dimensão mais fundamental da pessoa. Decorre daí que as pessoas se tornam principalmente mercadorias. As outras dimensões humanas (afetivas, cognitivas, espirituais, comunicativas etc) se tornam apêndices do trabalho. Apêndices, portanto, do capital, uma vez que o trabalho é a substância do valor/capital.

Burguesia e operariado, capital e trabalho estão em disputa no capitalismo. Mas também estão ligados umbilicalmente. São polos de um mesmo sistema, pois um não existe sem o outro e a luta do trabalho contra o capital jamais levaria à emancipação, muito pelo contrário: esta luta impulsiona e democratiza o capital, introjetando-o em cada poro da vida humana.

Por trás do ódio mortal que trabalhadores e burgueses nutrem um pelo outro, há uma aliança secreta entre eles. E esta aliança é o trabalho, o culto ao trabalho que dignifica o homem. Este culto ao trabalho oculta a adoração ao valor/dinheiro. Os operários não questionam o valor, que se deva trabalhar em troca de salário e poder de consumo (não questionam sua condição de mercadoria). Pedem apenas que este salário seja maior (sua sua mercadoria valha mais), que a burguesia não seja tão avara e reparta um pouco de seu lucro.

Esta aliança secreta entre trabalhadores e burguesia, unidos pelo amor que ambos nutrem pelo trabalho/valor, o prazer e o orgulho que eles sentem (ou dizem sentir) em submeter seus corpos e mentes ao trabalho exaustivo do dia a dia, esta aliança em torno da autoflagelação que significa o trabalho revela, de fato, o que são: escravos.

Mas são um tipo de escravos muito especial, bem diferente dos prisioneiros da antiguidade e dos negros americanos. Estes foram escravos forçados, involuntários. O burguês e o operário trabalham duro de bom grado. Dizem até que trabalhando imitam Deus: mais que digno, o trabalho é sagrado. Se o trabalho é sagrado e se este é a substância do valor, então, por dedução, o novo deus da modernidade é o Capital. E e burguês e o trabalhador são seus escravos voluntários.

É contra esse gozo masoquista, contra a escravidão introjetada pelo capital na psique de cada um, que o espírito do novo nobre se levanta. E ele se orgulha de amar o ócio na mesma medida em que sente nojo pelo amor ao trabalho, nojo da sacralização do trabalho que une o burguês e o operário, escravos voluntários do capital. O nobre despreza o escravo.

terça-feira, 20 de março de 2018

Nobres & vagabundos: os novo nobres

Por Franco Átila

Nietzsche é um filósofo reacionário, não importa o quão vanguardista ele seja. O que mais seria, senão reaça, quem defende a aristocracia como regime político ideal?

Mas há um jeito de salvar Nietzsche, não para ele (que certamente riria de tal presunção), mas para nós. Ele odiava o escravo, o espírito de cordeiro que se manifestava no cristão e no democrata burguês (uma extensão do cristão). Por isto ele recusava a ideia de uma democracia burguesa, que seria apenas um governo de escravos.

Nisto, ele acertou em cheio, assim como os roqueiros brasileiros. A democracia representativa, sua igualdade formal, suas leis e instituições, seu ideal de cidadania e a mitologia do estado de direito nada mais são que a face política da escravidão capitalista. Desejar a democracia e, na democracia, querer o conforto “civilizado” da vida classe média é querer ser escravo, como todos queremos.

Um projeto para a emancipação do capitalismo seria, não a retomada reacionária de um regime aristocrático, como Nietzsche queria, mas a recuperação, para cada indivíduo, de uma certa nobreza de caráter.

A sociedade emancipada do capitalismo exigiria uma revolução antropológica que extirparia os afetos submissos do escravo (trabalhador, gerente, rentista, proprietário) que nos habita, para colocar, em seu lugar, os afetos altivos do nobre: o orgulho e a generosidade, o autogoverno de si, o amor ao ócio, o ódio do trabalho e, principalmente, o desprezo pelo escravo. Desprezo, não por um escravo fora de nós, por um povo ou grupo social que deveria ou mereceria ser escravizado, mas pelo escravo interior, submisso voluntário à toda sorte de tiranos: padres e pastores, democracia de massas, capital.

Numa sociedade emancipada do capitalismo, o exercício da nobreza não seria para manter os privilégios de uma elite opressora, como nas aristocracias do passado. Mesmo porque a sociedade emancipada seria desprovida de classes e castas, composta em sua totalidade por homens e mulheres nobres e iguais. A luta pelo triunfo da nobreza se daria principalmente no espaço íntimo da psique, se expandindo para o fora social. A nobreza pessoal se afirmaria como recusa à qualquer submissão, seja a uma pessoa, a determinados grupos sociais ou a senhores abstratos e impessoais, como a técnica e o capital.

O nobre deve ter orgulho de sua liberdade radical, mas também deve ser capaz de identificar falsas liberdades e combatê-las com ferocidade. No capitalismo tardio, por exemplo, os neoliberais e os ditos libertários acreditam-se pessoas de mentes livres por lutarem contra o leviatã estatal. Advogam que, ao contrário do estado, o mercado proporciona o exercício pleno da liberdade. Em suas ilusões, trocam um senhor ruim, o estado, por outro pior ainda, o mercado, que é a expressão mais direta do capital e suas coerções impessoais. Neoliberais, liberais e libertários têm espírito de escravos e não sabem: acreditam-se livres. A escravidão inconsciente é a mais eficaz que há. E a mais perigosa também.

domingo, 18 de março de 2018

Nobres & vagabundos: o pesadelo dos artistas

Por Franco Átila

Embora a arte tenha permanecido, em grande parte, independente do mundo capitalista, como universo e como fazer estéticos, ela não está imune à expansão do capital a todas as esferas da vida. Na verdade, desde a invenção da imprensa (desde os primórdios do capitalismo, portanto) o capital tenta se apropriar da arte como mercadoria.

E o primeiro artista pop é ninguém menos que o Deus cristão. A reprodutibilidade da Bíblia impressa preludia a mercantilização da arte, que mais tarde os frankfurtianos vão chamar de indústria cultural.

Na esteira da narrativa bíblica, o romance será, por muito tempo, o epicentro desta crescente tensão entre o mundo “fictício” da arte e o mundo “real” da mercadoria, numa luta em que o este último tenta adestrar as forças selvagens daquele, absorvendo o fazer afetivo do artista no trabalho instrumental do burguês. O estatuto do romance oscila entre a obra de arte e a mercadoria, o da escrita, entre o ofício e a profissão e o do escritor, entre o artista e o profissional.

A partir do século XX, com a invenção das mídias elétricas (rádio, cinema, TV), a tensão entre arte e mercadoria se intensifica, com a última avançando constantemente no reino sagrado da primeira. Para o mundo do capital, a arte deve a ser produzida em massa e para as massas e seu objetivo principal é o lucro. A obra se torna mercadoria e o universo das arte num ramo de negócios, a indústria cultural.

Na passagem do século XX para o XXI, finalmente a mercadoria triunfa e, com raras exceções, a produção e a fruição estética é mais um negócio do capitalismo. Os próprios artistas passam a falar a linguagem dos pequenos burgueses contemporâneos, autointitulando-se empreendedores, inovadores, profissionais eficientes etc. Ou então vestem a máscara de trabalhadores, reivindicando para seu ofício o status de profissão regulamentada.

Finalmente, no século XXI, arte e vida não mais estão separadas. Mas, ao contrário da utopia sonhada pelos artistas do século XIX e de boa parte do séc. XX, não foi a vida que se tornou estética, com a arte derrotando o capital. O que aconteceu foi o contrário: a vida instrumentalizada no capitalismo absorveu a esfera estética e a transformou em mais um negócio, entre tantos.

A arte se tornou entretenimento. A última esfera da vida humana que ainda resistia às coerções do capital, finalmente caiu. O pesadelo dos artistas se tornou realidade.

sábado, 17 de março de 2018

As pessoas de bem 2


É preta favelada e se deu bem?

Só pode ser PCC!!!

Pessoa de bem é delegado,

Juiz, procurador, desembargador...

É a gente clara e esclarecida do asfalto.




quinta-feira, 15 de março de 2018

Nobres & vagabundos: o sonho dos artistas

Por Franco Átila

A união da arte com a vida é um sonho acalentado pelo artista moderno. A civilização burguesa tende a expandir o capitalismo a todas as esferas da vida: tudo e todos se tornam mercadorias e só tem importância o que pode ser mensurado como valor de troca: saberes, pessoas, coisas, seres vivos, terras…

Durante muito tempo, a arte (e os artistas) escaparam da absorção capitalista, pelo menos em parte. Aos artistas foi permitida uma vida sem trabalho, típica dos nobres e vagabundos, e neles se tolerou a loucura e a embriaguez.

O preço desta tolerância foi a separação entre arte e vida. Se o artista desfruta de uma liberdade moral que a pessoa comum não tem, sua atividade (a arte) deve ser claramente delimitada da vida em sociedade: uma coisa é a arte (ficção, artifício, imaginação), outra é a vida real.

O quadro é a expressão acabada desta separação. No seu interior circula o universo estético do pintor, teatro imaginário delimitado pela geometria retangular moldura. Fora dela, o mundo real. Se ficção e realidade se influenciam mutuamente, não deve restar dúvidas de que há claro limite entre eles.

Nas sociedades anteriores aos capitalismo esta separação, ou nao existia, ou não tinha a precisão geográfica da moldura. Em muitas culturas pré-capitalistas não havia nem mesmo uma palavra que se aproximasse do que entendemos por arte: um mundo e um fazer estéticos separado do mundo e fazer ordinários da vida real.

Os artistas da civilização burguesa ficaram livres do trabalho - fazer convertido em mercadoria, voltada para a produção de mais mercadorias que se tornam, por sua vez, valor de troca. Em contrapartida se apartaram do mundo e levam, enquanto artistas, uma vida marginal, fora da sociedade, produzindo objetos inúteis, do ponto de vista do valor de troca: pinturas, esculturas, músicas, poemas, romances, teatro.

O sonho dos artistas é a reintegração da vida na arte ou, por outras palavras, o fim da arte. Afinal, numa vida vivida esteticamente não haveria necessidade de haver uma esfera da ficção e um fazer artístico separados da vida ordinária. Mas isto demandaria também o fim do capitalismo, pois o fazer instrumental voltado para o capital (o trabalho)  é incompatível com uma vida em que a atividade humana se confunde com o fazer estético. Certamente haveria pessoas mais propensas e especializadas no que chamamos de arte, mas sua posição e função sociais seriam distintas do papel de louco embriagado que o artista exerce no capitalismo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

nuvens-chumbo 2

mísseis cruzeiro
a calçada-casa
catatonia além-desespero
os pés de asfalto
perdeu playboy
a madame de salto alto
uma síria uma líbia a mais
ou a menos
tanto faz
noias ou loucos
pirados aleijados
trapos ambulantes micro-
empreendendor eu-
femismos pessoas
em condição de rua
aumentar capacidades nacionais
de defesa nuclear
colaboradores da empresa
o ar pesado
irrespirável das ruas
shoppings casas
um crash
ronda os mercados

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

marchinha do pato encantado

a Globo mandou o pato
ficar em casa batendo panela
sair de camisa verde-amarela
pedir a cabeça do Lula e dela
deixar a bunda exposta na janela
pra gente rica passar a mão nela

e ele fez tudo e fez de bom grado
pois é um pato muito bem mandado
olha a alegria do pato enrabado

a Globo gosta é de dar o golpe
no povo preto no povo pobre
em 16 e em 64
com os milicos e depois com os patos

a verdade é dura
a Globo apoiou a ditadura

a verdade é dura
a Globo só persegue o Lula

a verdade é dura
a Globo fascistou com o Moro

a verdade é dura
o pato foi feito de bobo

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

crianças loiras brincando

eu vou ser o mocinho
eu não quero ser o árabe
o meu é maior que o seu
pergunte depois
de puxar o gatilho de urânio

crash

o meu carro corre mais
o meu avião tem mais bomba
meu traque faz mais barulho
o cogumelo do meu é maior
a nuvem do meu vai mais longe

crash

quando crescer eu vou ter uma startup
no ramo high tech
eu vou star no céu dos CEOs
eu vou pra CIA matar terrorista
e ferrar com os comunistas
eu quero é ser banqueiro
o negócio comigo é cash

crash

domingo, 4 de fevereiro de 2018

álgebra alquímica

uns poucos alquimistas
transmutam as matérias
e as almas deste reino
na álgebra abstrata
do corpo sagrado de Mamon

do alto de sua torre
transmutam mil em milhões
e chutam a escada
de suas transmutações

no reino dos alquimistas
há mais riqueza que gente
mais cura que doença
e mais comida que fome

mas na álgebra concreta
do povo deste reino
o suor se multiplica
em migalhas e milhões
de famintos doentes e pobres

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Do moralismo e das pessoas de bem

Todo moralismo é uma farsa, sem exceção. Na política, na religião, nos costumes, nas artes ou nos negócios, o moralismo é sempre um disfarce para o exercício do ódio e do poder tirânico sobre as pessoas. Quem faz discurso moralista, ou é pilantra ou idiota útil, também (auto)denominado "pessoa de bem".

A partir da terceira revolução industrial, o trabalho humano está se tornando obsoleto como produtor de valor. Cada vez mais pessoas tendem a se tornar supérfluas para o mercado e são empurradas para o desemprego e o subemprego. Quem ainda se mantém no mundo do trabalho, tem medo de se tornar supérfluo.

Sem trabalho, as pessoas são excluídas da vida social e empurradas para a miséria. Incapazes de questionarem o capitalismo, cujas coerções sociais foram naturalizadas na psique, as pessoas tendem a se refugiarem no moralismo, em busca de segurança, certezas e bodes expiatórios em que possam descarregar suas frustrações.

O sucesso do moralismo entre as massas é obra do medo e da frustração que, por sua vez, redunda em ressentimento e  ódio. Os imorais, o grupo de pessoas que se desviam da boa moral, passam a ser o alvo do ódio moralista e se tornam culpados pelas desgraças do mundo.

Os evangélicos odeiam gays e macumbeiros, a classe média odeia os pobres e a esquerda, o povo odeia os políticos, os esquerdistas odeiam a banca e as corporações. E o motivo de tanto ódio é sempre o desvio moral do grupo odiado. Gays e macumbeiros são pecadores, os pobres são preguiçosos, a esquerda quer me roubar e dar aos vagabundos, os políticos são ladrões, a banca é gananciosa etc.

Mas a pessoa de bem, seguidora da moral e dos bons costumes, não acredita que seja ódio ou ressentimento o que ela sente pelo outro "imoral". O que o moralista diz sentir, acreditando em sua própria mentira, é indignação para com o desvio ético dos imorais, que tanto prejudicam a ordem social. Os evangélicos, que deveriam amar os pecadores, chegam a inventar para si mesmos que amam os gays (como Deus manda), mas abominam as práticas homossexuais, por serem demoníacas. Convenientemente, esta autoilusão "se esquece" que o homossexualismo constitui a singularidade irredutível (a alma) da pessoa que é gay e que não há como abominar o homossexualismo sem abominar o homossexual.

A necessidade de moralismo das massas se torna um terreno fértil para o surgimento de uma espécie muito particular de vigarista, o líder moral. Nossa época é pródiga no surgimento de líderes morais, prontos a oferecer um bom código moral ao rebanho capitalista amedontrado, frustrado e ressentido, ávido por encontrar um imoral que sirva de bode expiatório para descarregar seu ódio.

A corrupção (da alma, do corpo, dos negócios, do estado etc) se torna uma obsessão em nossa sociedade, onde o discurso moralista se tornou hegemônico. Para a mente moralista, a corrupção é a fonte de todos os males e deve ser combatida com rigor, assim como os corruptos, que devem ser punidos para se purgarem dela e servirem de exemplo aos que se sintam tentados a se deixarem corromper.  A moral deve ser atingida pelo convencimento, mas também pela coerção.

A coerção, "necessária" para o estabelecimento da boa moral, é a brecha para a proliferação das tiranias e protofascismos, pragas que infestam, por todo o globo, o tecido social do capitalismo tardio. O mundo atual se tornou o paraíso para o líder moral, o vigarista que se aproveita dos medos e ressentimentos do povo para impor ao rebanho atordoado sua tirania moralista, que não hesita em punir, com requintes de sadismo, o imoral que insiste em não se comportar como uma pessoa de bem.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

boas novas II

a nova agricultura é o agronegócio
o novo artesanato é o just in time
a nova juventude é o botox
a nova sabedoria é o Google
a nova amizade é o Facebook
a nova amizade é o networking
o novo erotismo é a pornografia
a nova arte é o entretenimento
a nova viagem é o turismo
o novo homem é o profissional
a nova mulher é a profissional
a nova virtude é a eficiência
o novo trabalho é o bico
o novo alívio é a droga
a nova consciência é o bolso
o novo desejo é o consumo
o novo templo é o shopping
a nova fé é o evangelho da prosperidade a nova alma é Narciso e o novo Cristo
é Mamon