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Socialistas

Da série "Capitalismo em agonia"
Este texto é a continuação do ensaio “Liberais, conservadores, progressistas e ativistas

Introdução 

O liberalismo, em seu espectro mais amplo, que vai da esfera econômica a dos costumes, constitui o cerne da cultura capitalista (a modernidade). É ele que mais diretamente expressa o ideário, a moral, os afetos e a visão de mundo do sujeito automático, que não é outra coisa senão o capital encarnado no indivíduo concreto.

Vimos que tanto o conservadorismo quanto o progressismo constituem forças políticas estruturais (necessárias, portanto) do capitalismo, cuja função é contrabalancear e amenizar, cada um a seu modo, as tendências espontâneas do capital, tais como a de sua progressiva concentração e centralização, a expansão da lógica da mercadoria a todas as esferas da vida e sua abstração generalizada do humano, que reduz a concretude social e individual a  formas abstratas, quantitativas, universalizantes, fragmentárias e vazias de sentido. A…

O Reino de Mamon

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Não culpe os economistas pela bagunça

Da série capitalismo em agonia
Este texto é um comentário ao artigo “Culpe os economistas pela bagunça” de Binyamin Appelbaum, publicado recentemente no GGN.

O artigo de Binyamin Appelbaum ilustra um erro clássico de julgamento, baseado no sucesso distributivo provisório dos anos dourados do capitalismo, que duraram de 1945 a 1975, quando os países do Primeiro Mundo conseguiram colocar 2/3 da população na classe média e proporcionar uma pobreza "digna" para o terço restante.

Para o autor, a culpa pelo fim deste sucesso foi um erro político dos governos, somado à ganância das corporações, principalmente da banca, que promoveram a ideia dos economistas (neoliberais principalmente) em favor do crescimento dos lucros a qualquer custo.

Mas em meados da década de 70 realmente havia uma crise de lucratividade em todo mundo ocidental, cuja expressão foi uma estagflação prolongada. Ora, sem lucratividade, o capitalismo não é capitalismo. O que os economistas neoliberais sugeriram foi …

Liberais, conservadores, progressistas e ativistas

Da série "Capitalismo em agonia"
O capital em si é uma grandeza abstrata e cega, cuja finalidade última é a expansão ilimitada de si mesmo. Neste aspecto, é o valor que se valoriza, O valor, por sua vez, é uma grandeza dada pela quantidade de tempo necessária para um trabalhador produzir uma mercadoria. Por isso, o capital, em última instância, é trabalho acumulado, trabalho morto. Como o trabalho é uma relação social, em consequência, o capital também o é. Ou melhor, o capital é a forma social estruturante da sociedade moderna, que molda todas as relações sociais, as instituições e também a subjetividade dos indivíduos. Estes, quando agem no mercado, seja como proprietário ou trabalhador, devem agir encarnando o sujeito automático, que é o próprio capital subjetivado. No ensaio O capital é masculino vimos que as características intrínsecas ao sujeito automático encarnado na pessoa são a racionalidade instrumental e a competitividade, qualidades percebidas, desde antes do ca…

Com a bênção de Deus: poema e voz

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Aquele corpo

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as mentiras da arte são tantas... são plantas artificiais artifícios que usamos para sermos (ou parecermos) mais reais          H. Gessinger
Um poeta se alimenta de outros poetas, de alguma filosofia, alguma notícia e alguma fábula. Mas há também a amada e os amigos. Amigos doutos e outros nem tanto, pois erudição e intelecto demais cansam a alma rude do poeta. Não que ele seja prático da vida. Mas também não é um teórico da letra. O poeta é um homem de ação da palavra, com pouca paciência para sua ciência ou contemplação. Ele luta no mundo das palavras. Mas está na vida também, pois tem corpo, casa, trabalho e vai ao supermercado. O poeta toma café, cria filhos, cuida do cachorro e conversa amenidades com vizinhos, parentes e conhecidos. Mas seria demais dizer que ele vive ou sabe viver, que tem profissão (além de seu ofício obscuro de cantar palavras mudas), que é virtuoso, íntegro, generoso – aliás,  não seria surpresa flagrarmos no poeta um ente despedaçado, vaidoso e de caráter duv…

Matrix e a democracia totalitária

Da série "Capitalismo em agonia"
O que eu queria propor aqui é uma tentativa de aproximar o filme “Matrix”, sobre o qual já escrevi em outro ensaio, com o artigo “A democracia totalitária” de Robert Kurz, um dos fundadores da teoria do valor-trabalho. O meu primeiro objetivo é facilitar, por meio da analogia, o entendimento do leitor acerca de alguns conceitos e pressupostos importantes da teoria do valor. O segundo objetivo é mais interpretativo, de tentar mostrar que a semelhança do filme com a teoria do valor não é fortuita, mas um sintoma da crise sistêmica por que passa o capitalismo na atualidade.
Os paralelos entre o “Matrix” e o artigo de Robert Kurz
Coincidentemente (mas seria mesmo coincidência?), tanto o filme “Matrix” quanto o artigo de Robert Kurz são de 1999, auge da era neoliberal, quando se acreditava que o capitalismo vencera definitivamente o socialismo, Marx e o marxismo; e que não restava outro caminho para a humanidade que não o da democracia liberal combin…