01 fevereiro, 2025

felis catus

flui
peixe-pluma 
sobre móveis e muros
entre o chão e o ar
                                 voar
quase a ponto de

pelos e passos macios
ouvidos e olhar afiados
enamora-se de estrelas
e telhados

mesmo sem fome
se põe sempre armado
e salta 
ágil e preciso
para a surpresa da presa
entre garras que a rasgam
sem pudor nem piedade

por vezes malvado
seu amor é intenso
mas implícito
visível apenas 
a quem se irmana com o seu
silêncio 
atento
ao mais sutil movimento




25 janeiro, 2025

Outra fera

          Por Franco Átila

É um bicho mágico
vive dentro do mito
encanta o encontro 
e os desencontros
seu fazer é rito
no turbilhão do tempo
todo espaço é templo
o corpo já é espírito
e o que tem serventia 
é também poesia... o mundo é
feito de deuses embriagados
pela guerra e pelo sexo
a tribo dança
o cauim encanta.

Retire o encanto do bicho
e torne o dia útil
e a noite um restaurar-se para o dia
e o ócio um alegrar-se para o dia
mais produtivo e útil.
O mundo 
do fundo da alma
ao alto das galáxias 
torna-se um mapa
de números inúmeros
regido pelos deuses do cálculo 
e da utilidade.

Retire a mágica do mundo
e ela voltará sorrateira
pela porta dos fundos
como bruma do inferno
(que se diz evangelho)
sob a alma high tech
do rebanho pós-moderno
ofuscando a vista
e engasgando a boca
dócil do cidadão amestrado
que agora rosna
arreganha os caninos
e saliva
a sanha assassina
de um delírio apocalíptico.

19 janeiro, 2025

Fera

Há os que limam 
ferozmente
as palavras
embora mintam
que o fazem
pacientemente.

Há os que se deixam tomar
pela ferocidade do verbo
crendo (cândidos) que são
beijos suaves da língua 
encantada das musas.

Mas desconfio que nem estes
nem aqueles nem ninguém
sabe os modos e os motivos
dessa fera que é ritmo
espanto e mal-entendidos.

Há ainda as coisas as bocas o mundo
de onde as palavras brotam 
e para onde gritam e se desembocam
tão ferozes quanto impotentes.

Limar palavras é limar 
o ser das coisas
até o osso do ser
ou seria mais uma
camuflagem da fera
que é só parecer?

Este olhar táctil e agudo
às coisas e seus absurdos
se escreve de ouvido
se sente com o fígado
fareja e ataca
e enfim nos arrasta
às ruínas do mundo.

A fera que uiva
e saliva poesia
regurgita a carniça 
de enganos e enigmas
da vida indigesta
(e nos lançamos a ela
como se fosse ambrosia).

31 dezembro, 2024

26 dezembro, 2024

dismindfulness

não queira que eu esteja aqui

não queira que eu seja agora

saber-me inteiro não queira

coisa que nem mesmo eu quis


há tantas metades minhas

espalhadas pelo tempomundo

nãonunca me saberei

quandondeuoutroeuvários


rastro de animal nenhum

eu soo pleno ao contrário

o abismo do abismo em mim

sem fundo limiar sem fim


e a cabeça aluada

voa aos confins

ah! quemninguéns 

jamais vos me alcançareis

23 dezembro, 2024

Aura

Aura

que bela palavra!

Mística, aérea, etérea

alvorada da vertigem d'alma.

Mão, rosto... o corpo à esquerda

me formiga. Fornicam na cabeça

dormências e dores. Ó sinistra

brisa que me haure a alma!

Cefaliv te acalme

Aura





03 novembro, 2024

Dos filhos

que cada qual encontre o seu caminho

que não haja, nele, tantos espinhos

que, no entanto, haverá em qualquer caminho

que saibam, então, se desviar dos espinhos

que se aprende, talvez, após muito caminho

que, enfim, apesar do peso dos espinhos

que seja longo e pleno e leve o caminho

21 outubro, 2024

cis(co)smo

a pessoa é um cisco 

na face da terra

a terra é um cisco 

em torno do sol

o sol é um cisco 

num rincão da galáxia

e a galáxia é um cisco

na amplidão do universo


há mais sóis na galáxia 

e mais galáxias no céu

que pessoas na terra

e neurônios no cérebro


como pode tudo isso

caber na cabeça 

de uma pessoa-cisco

(do cisco do cisco 

do cisco) do cosmo?

20 outubro, 2024

há/ah amor?/!

os corpos se tocam

confundem se enroscam

as almas no entanto

galáxias distantes

milhões de eros-luz

13 setembro, 2024

Posteridade

Ó Drummond

Também quero a eternidade

Cansei da instantaneidade

Da pós-modernidade

Quero ficar

Para a posteridade!

Mas haverá pos

                                 ter

                                            id

                                                 da

                                                     de

                                                       ?

         

 


10 setembro, 2024

Pequena primavera num inverno infernal

Seca manhã de setembro

ruídos e carros

calor e fuligem

das matas de ontem.


Em meio ao caos

das ruas de hoje

um carro amanhece

coberto de flores.

29 agosto, 2024

súplica

alguém
me dê esperança
me livre do coiso
me acenda o riso
me ascenda a alma
me percorra o corpo
um frenesi de energia
um transbordar de alegria
que há muito não ri

alguém
um líder um profeta um sábio
uma bruxa um anjo um pássaro
um totem um presságio (a flor
do poeta nascida no asfalto)
algo ou alguém   o que for
me mostre o estreito caminho
me revele o improvável porvir
que não caia no abismo ao fim

e quando vier a mim
dádiva   graça   benesse
me transcenda me atravesse
e contagie toda a gente

e que este tempo besta
este temporal de perrengues
pragas selos tristes trombetas
vá pro diabo que o carregue

25 agosto, 2024

clima

de fim de festa
fim de mundo    um dilúvio
de fumaça
despenca de rios voadores
(e nos afoga no ar)
céu cerrado
tórridas serrarias
soja e gado
fogo e cinzas
o mato cinza
a cidade cinza
a vida cinza
a hora cinza

e este chão árido
doente
sob o sol pálido
inclemente



02 junho, 2024

ah!

efêmera flor 

      áspera flor

            ávida flor

                  ave da flor

                                            da vida

ah! vida-flor





31 maio, 2024

Dias dançantes

              Vem, me dê a mão
              A gente agora já não tinha medo
              (Chico Buarque)

Quando havia utopia
o mundo era escuro
mas o sol nascia no futuro.

O mundo era muito
desigual e bruto e falar
temerário
mas havia a esperança de um dia
se acordarem (e rimarem) os contrários.

A música era alegre
com um pingo de tristeza
ou seria triste
com lampejos de alegria?

Eu era menino e pouco
da vida eu sabia
sei que a TV me ninava
toda noite com João e Maria
quando havia (ainda) utopia.

 


 

13 maio, 2024

Cerco

Olho para cima e um pastor furioso

cospe o Evangelho ao pecador comunista

ateu, macumbeiro, gay, feminista...


Olho para baixo e a Terra se esboroa 

em monturos de lixo e nuvens de fuligem 

devorada pela fábrica de mercadorias.


Olho à direita e se arreganham caninos fascistas

e se entoam as ladainhas do empreendedorismo 

e os mantras sagrados do livre mercado.


Olho à esquerda e não vejo nada, nada imagino

minha cabeça avoada fincou, enfim, os pés no chão 

e cercou-se da realidade


(minha cabeça perdeu

o descaminho dos sonhos, perdeu

sua sanidade).

 


10 maio, 2024

efêmera flor

o que sobra de ti
      se derrama
            se esparrama
                  lava e lama

o que sobra de ti
      são os porres

o porre dos bares

o porre de um filme
      uma canção 
            a arte que for

o porre de um pôr
      do sol entre os prédios
 
e o porre total
      da porra do amor








26 abril, 2024

Ave do acaso

          se você vier pro que der e vier comigo
          eu lhe prometo o sol
          se hoje o sol sair
          (G. Azevedo e R. Rocha)
 
o meu canto é mais
silêncio do que som
é mais desnorteio
que abrigo 
é ascender às sombras
do fundo do abismo
mínima melodia
ritmo incerto
desarmonia
 
mas se você vier 
comigo
vou te levar ao limiar
entre o chão e o mar, o mar 
e o ar, entrelugar 
onde o eu e o tu se entrelaçam
a noite se faz dia claro
o canto se perde do tempo
e em ondas de sonho flutuam
inefáveis naves do acaso

24 abril, 2024

Preciso

Bem ou mal, cantar
eu sei, ou não.
Preciso saber?
Preciso
é aprender tocar
fogo em tudo
que seja preciso:
tocar o foda-se.




O engenheiro onírico

Quando eu era menino, adorava brincar de carrinho.  Então, construía estradas, pontes, estacionamentos, postos,  calçadas e ruas, tudo muito...