quinta-feira, 12 de julho de 2018

Matrix e a dominação abstrata do capital

 Por Franco Átila

O zumbi dos filmes trash não são a única metáfora do capital. A ficção científica é, na modernidade, o correspondente às narrativas míticas das antigas civilizações. Isto porque o tempo da modernidade é o futuro, como observou bem Octavio Paz.

Esta temporalidade mítica que aponta para o futuro não é casual, mas o correlato do tempo histórico do capital, que deve se acelerar sem parar, pois a única forma do valor manter sua valorização infinita é o constante aumento de produtividade, que implica em inovação tecnológica permanente e, consequentemente, mudanças velozes do mundo do trabalho e do lazer, das visões de mundo e comportamentos. Para se reproduzir, o capital exige do ser humano um desprendimento do passado e do presente e um lançar-se contínuo no futuro.

Na passagem do século XX para o XXI surge o filme Matrix. Nele, os humanos reais estão hibernando em campos de cultivo, para que as máquinas extraiam deles energia elétrica para seu funcionamento. Para que não morram, as máquinas precisam fazê-los pensar que vivem uma vida real e, para isso, criaram a Matrix, um programa de realidade simulada conectado ao sistema nervoso das pessoas. A Matriz simula a realidade do século XX e faz as pessoas acreditarem que estão vivas.

Como o filme fez um sucesso estrondoso, muitos exegetas começaram a se debruçar sobre ele. Há os que simplesmente desprezam o filme, por não passar de mais um caça-níquel do cinema comercial. Outros, que se querem mais críticos, apontam que o filme acaba por antecipar os perigos da atual sociedade hiperconectada, e que se consolidaria logo após o filme, com a onipresença da internet no início do século XXI. Alguns, mais “filosóficos” e “espiritualistas”, questionam, a partir do filme, se a realidade humana não é, de fato, uma imensa simulação. Digamos que o filme Matrix, por conta de seu sucesso, criou um mercado para especulações nerd-filosóficas sobre seu significado.

Como nos filmes sobre zumbis, este imenso sucesso de Matrix ultrapassa a fronteira do blockbuster e acaba se fixando como cult na alma do povo, particularmente numa fração específica deste povo, a dos jovens com atração por tecnologia, ou seja, a comunidade nerd do capitalismo. Matrix, de fato, tem a profundidade das fábulas míticas, assim como as narrativas trash sobre zumbis.

E esta não é a única semelhança do filme com as fábulas zumbis. Como estas, a questão central em Matrix gira em torno do controle, ou seja, da dominação. Quem ou o que domina a humanidade? Em Matrix são as máquinas que se utilizam das pessoas para se reproduzirem, sem que estas saibam da realidade do domínio. As pessoas acreditam que têm uma vida real e que escolhem seu caminho, mas são, desde as entranhas (literalmente) da mente dominadas pelas máquinas, diretamente conectadas a seus neurônios.

Como nas fábulas zumbis, o filme Matrix expressa o pressentimento popular de que existe uma dominação abstrata que submete as pessoas por suas costas, sem que elas saibam. Ou seja, há o pressentimento do domínio do capital. Mas este domínio sofre um deslocamento: no filme, ao invés das pessoas serem submetidas por uma forma social (o capital), elas são dominadas por uma forma técnica (a máquina). Da mesma forma, nas narrativas zumbis, as pessoas são dominadas por uma forma biológica (o vírus) e não pelo capital.

O filme Matrix e as narrativas zumbis pressentem o domínio do capital. Seu sucesso indica que as pessoas também pressentem. Algo está errado no reino de Mamon, pois o domínio abstrato do capital deveria ser invisível e naturalizado, sequer poderia ser pressentido pelo povo.

Mas o povo capitalista não quer (não pode, não está com a psique preparada) ver a realidade como ela é. O fetiche do capital deve permanecer um tabu: não se pode olhar a Deus diretamente na face, pelo menos enquanto este Deus estiver sustentando as colunas do mundo. E o capital é o Deus que sustenta o mundo interior e exterior do homem moderno, que não está pronto para abandonar seu Deus.

Algo na psique quer ver o Deus Mamon como ele é. Nas camadas profundas da psique moderna há uma luta intestina do reprimido (a dominação abstrata do capital) que quer vir à tona, rompendo as barreiras do recalque que o mantém inconsciente. Deslocar a dominação do capital para a dominação do vírus ou das máquinas é uma forma de deixar o reprimido aflorar, mas sem que se possa ver seu verdadeiro conteúdo. Na arte pop audiovisual, o vírus zumbi e a Matrix são metáforas do capital, pois se assemelham a ele sem sê-lo, o que não deixa de ser uma forma de ocultar a verdade. São uma maneira estética de dar vazão ao reprimido, sem que se tenha consciência de sua verdade, para aplacar momentaneamente as tensões insolúveis da cultura capitalista.

A arte e os procedimentos estéticos também são utilizados para a repressão.

Mas até quando?

Nenhum comentário:

Postar um comentário