sábado, 16 de junho de 2018

Escravidão evangélica e dominação abstrata

Por Franco Átila

O evangélico (uma versão brasileira do protestante), como toda boa ovelha cristã, deve amoldar seu espírito à ordem social vigente. Max Weber já observou como o espírito protestante (disciplinado, trabalhador e ascético) se conforma bem à racionalidade burguesa, em contraste com o catolicismo, cuja função era moldar o espírito para a cosmovisão feudal do medievo.

Se o catolicismo sempre foi estranho ao capitalismo (não foi coincidência que a rebeldia religiosa mais contundente contra o capital, a Teologia da Libertação, tenha nascido no seio do catolicismo), o protestantismo e seu descendente latino-americano, o pentecostalismo evangélico, têm exatamente a função de moldar/escravizar o espírito à sociedade capitalista.

Trata-se portanto de fazer o espírito se curvar à dominação social exercida no interior de outra cultura, a moderna, moldada desde as entranhas pelo capital. Há algo extraordinário nesta dominação, que nenhuma outra cultura, nem as primitivas, nem as civilizadas, jamais experimentaram. É que no capitalismo, pela primeira vez na história da humanidade, a relação de poder fundamental não se circunscreve nos limites do humano, não se trata do domínio social de um grupo humano sobre o outro.

O marxismo tradicional até pode contestar tal afirmação, pois vê na exploração da classe trabalhadora pela burguesia, a dominação fundamental do capitalismo. Não se pode negar que nas sociedades capitalistas sempre há uma pequena elite que explora uma grande massa de trabalhadores e excluídos. Mas esta dominação, no capitalismo, embora seja importante, é secundária e não principal. Ela não define a sociedade capitalista e o homem moderno como uma cultura e subjetividade singulares, radicalmente diferentes das anteriores.

Mais que isso, a dominação exercida sobre os trabalhadores pela elite burguesa se dá por procuração, em nome do verdadeiro poder de mando no capitalismo, que é o valor (dinheiro). A elite, embora se beneficie da exploração do trabalho, não age por interesse próprio, mas sob as coerções da concorrência e do lucro, impostas pela lógica de valorização do capital. A elite capitalista age como capataz do valor.

A dominação principal do capitalismo, então, é aquela que o valor (de troca, o dinheiro) exerce sobre as pessoas, sejam elas de que classe forem. Esse foi o grande achado do Marx antropólogo, que conseguiu ver a singularidade da alma capitalista em contraste com todas as culturas anteriores à modernidade. Mas o que é o valor? Que poder é este que faz curvar diante de seu poder, não apenas o povo, mas também as elites burguesas? De acordo com Marx, é uma quantidade abstrata de tempo de trabalho necessária para produzir uma mercadoria.

A vida humana, no capitalismo, gira em torno dessa unidade mágica e abstrata chamada valor, uma quantidade abstrata de tempo de trabalho, que circula e se acumula sob o nome de capital. Por se tratar de uma quantidade abstrata, o valor (e o capital) é, por natureza, vazio de conteúdo, tratando-se de uma espécie de forma pura, uma abstração vazia mas real e atuante socialmente, pois é o valor e suas leis (mais valia, concorrência, acumulação) que dirigem a vida social no capitalismo.

Valor, trabalho, mercadoria e capital são as categorias básicas e interdependentes em torno das quais a vida gira no regime capitalista. O trabalho é a substância do valor, pois na definição de valor, este se constitui exatamente como tempo de trabalho. A mercadoria é a encarnação do valor (como trabalho passado) numa coisa material (bens) ou imaterial (serviços). O capital é o próprio valor que se valoriza, ou seja, é valor em movimento.

A novidade dessa dominação é que ela não se exerce diretamente, a partir de um grupo humano sobre o outro, mas por meio do trabalho. É pela via indireta do trabalho remunerado (que já é valor) que a burguesia explora o operariado e por meio da mais valia (lucro) acumula capital. Mas a questão no capitalismo é que o meio (valor/trabalho) de dominação acaba por se tornar um fim em si mesmo e passa a dominar a todos, independente do grupo social a que se pertença.

É esta dominação que o evangélico têm que aceitar, moldando seu espírito de acordo com o mundo do valor/trabalho. Mas se o valor é uma entidade abstrata e vazia de conteúdo, que outro espírito ele não poderia gerar, senão um também vazio e abstrato? Pois assim é o sujeito moderno, puramente formal e abstrato, destituído de conteúdo. O sujeito do direito e da democracia representativa é a expressão explícita desta subjetividade formal. Este sujeito moderno se crê livre mas é controlado, sem o saber, pelo sujeito automático, que é o próprio capital.

O problema é que este sujeito abstrato do valor/trabalho, destituído de consciência e dotado de uma racionalidade meramente instrumental, é fundamentalmente desumano, o que causa um terrível desconforto psíquico no homem moderno, que sente todos os conteúdos potenciais de sua humanidade se esvaírem pelo ralo da abstração cega do capital.

A tarefa do cristianismo evangélico (e protestante) é moldar o espírito a esta dominação abstrata e desumana do capital, e fazer crer que, no Cristo, há ainda algum conteúdo humano que possa ser recuperado pelo homem moderno. Mas o verdadeiro e único Cristo do capitalismo é Mamon. É à Mamom, o Deus vazio, cego e abstrato do capitalismo, que a igreja evangélica faz dobrar o espírito de seus fiéis, na pior escravidão espiritual que já existiu na face da terra.

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