quinta-feira, 14 de junho de 2018

A praga evangélica

Por Franco Átila

Em última análise, todo ser humano, sob o capitalismo atual é evangélico-protestante nas profundezas de seu espírito, mesmo que se declare católico, pagão ou ateu. Se a pessoa se converte ao cristianismo evangélico, como tantos estão a fazer no Brasil atual, ela está apenas explicitando o Deus que já habita as entranhas de sua alma e se encontrava em estado de latência. E este Deus só é o Cristo em aparência.

O ética do trabalho do homem-mercadoria, o ganhar e gastar do homem reto (a pessoa de bem), a disciplina para o estudo e a poupança (o próprio estudo é uma acumulação de capital humano para o futuro), a racionalidade instrumental, a subjetividade abstrata e puramente formal desdobrada no direito e na democracia, todos estes valores democráticos se coadunam com uma vida humana entregue ao capital, dedicada ao único e verdadeiro Deus protestante: Mamon.

E o homem protestante ideal, por sua vez, é idêntico ao homem classe média, outrora chamado pequeno burguês, esta subjetividade vazia, fragmentada e abstrata que realiza o sujeito automático do capital de forma quase perfeita.

Se o capitalista foi chamado por Marx de representante do capital, utilizado por este último como instrumento para a exploração do operariado (os fodidos pelo capital), o homem de classe média é a encarnação do capital no humano: é o capital como sujeito automático tornado humano, espírito santo de Mamon impregnando o primata homo sapiens para transmutá-lo em homo economicus.

No capitalismo atual, a grande maioria de humanos miseráveis que habita o planeta tem um único e obsessivo objetivo: tornar-se homem de classe média. Em verdade, já o são em espírito, pois procuram se educar a si e aos seus para a cidadania e o mercado e se aferram ao rígido ascetismo protestante da disciplina para o trabalho e o mercado.  Falta a esta maioria miserável, apenas a bênção de Mamom, tocando suas almas com o milagre da prosperidade e tornando-as ricas em valor (financeiramente). E continuará faltando, pois a bênção do “fazer pé de meia” será dada a cada vez menos pessoas no capitalismo global.

E para quê existe o homem classe média se não para se doar inteiro para o capital? Inclusive em seu tempo livre de trabalho, ele se entrega, como consumidor, à indústria do entretenimento. Nem mesmo a arte o salva de Mamom, pois sua tendência é consumir massivamente uma arte pop acrítica e superficial, desenvolvida inteiramente sob as leis mercantis de Mamon.

O homem ideal do capitalismo total da atualidade é o homem classe média, idêntico ao cristão protestante/evangélico. A praga evangélica é bem mais geral e profunda do que se pensa, no Brasil e fora dele.

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