quinta-feira, 15 de março de 2018

Nobres & vagabundos: o sonho dos artistas

Por Franco Átila

A união da arte com a vida é um sonho acalentado pelo artista moderno. A civilização burguesa tende a expandir o capitalismo a todas as esferas da vida: tudo e todos se tornam mercadorias e só tem importância o que pode ser mensurado como valor de troca: saberes, pessoas, coisas, seres vivos, terras…

Durante muito tempo, a arte (e os artistas) escaparam da absorção capitalista, pelo menos em parte. Aos artistas foi permitida uma vida sem trabalho, típica dos nobres e vagabundos, e neles se tolerou a loucura e a embriaguez.

O preço desta tolerância foi a separação entre arte e vida. Se o artista desfruta de uma liberdade moral que a pessoa comum não tem, sua atividade (a arte) deve ser claramente delimitada da vida em sociedade: uma coisa é a arte (ficção, artifício, imaginação), outra é a vida real.

O quadro é a expressão acabada desta separação. No seu interior circula o universo estético do pintor, teatro imaginário delimitado pela geometria retangular moldura. Fora dela, o mundo real. Se ficção e realidade se influenciam mutuamente, não deve restar dúvidas de que há claro limite entre eles.

Nas sociedades anteriores aos capitalismo esta separação, ou nao existia, ou não tinha a precisão geográfica da moldura. Em muitas culturas pré-capitalistas não havia nem mesmo uma palavra que se aproximasse do que entendemos por arte: um mundo e um fazer estéticos separado do mundo e fazer ordinários da vida real.

Os artistas da civilização burguesa ficaram livres do trabalho - fazer convertido em mercadoria, voltada para a produção de mais mercadorias que se tornam, por sua vez, valor de troca. Em contrapartida se apartaram do mundo e levam, enquanto artistas, uma vida marginal, fora da sociedade, produzindo objetos inúteis, do ponto de vista do valor de troca: pinturas, esculturas, músicas, poemas, romances, teatro.

O sonho dos artistas é a reintegração da vida na arte ou, por outras palavras, o fim da arte. Afinal, numa vida vivida esteticamente não haveria necessidade de haver uma esfera da ficção e um fazer artístico separados da vida ordinária. Mas isto demandaria também o fim do capitalismo, pois o fazer instrumental voltado para o capital (o trabalho)  é incompatível com uma vida em que a atividade humana se confunde com o fazer estético. Certamente haveria pessoas mais propensas e especializadas no que chamamos de arte, mas sua posição e função sociais seriam distintas do papel de louco embriagado que o artista exerce no capitalismo.

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