quarta-feira, 21 de março de 2018

Nobre & vagabundos: A aliança secreta dos escravos

Por Franco Átila

O capitalismo oscila entre o capital e o trabalho (burguesia e operariado), polos opostos de um mesmo sistema social e psíquico. O trabalho é a substância do valor. A opressão capitalista não é a do capital contra o trabalho, mas se exerce por meio do trabalho. O trabalho não é libertador e sim opressor. Neste ponto, finalmente o novo marxismo da crítica do valor concorda com os artistas e sua revolta contra a instrumentalização do homem provocada pelo trabalho. Este não dignifica ninguém, e sim coisifica as pessoas.

No capitalismo, o trabalho é uma mercadoria. É também a dimensão mais fundamental da pessoa. Decorre daí que as pessoas se tornam principalmente mercadorias. As outras dimensões humanas (afetivas, cognitivas, espirituais, comunicativas etc) se tornam apêndices do trabalho. Apêndices, portanto, do capital, uma vez que o trabalho é a substância do valor/capital.

Burguesia e operariado, capital e trabalho estão em disputa no capitalismo. Mas também estão ligados umbilicalmente. São polos de um mesmo sistema, pois um não existe sem o outro e a luta do trabalho contra o capital jamais levaria à emancipação, muito pelo contrário: esta luta impulsiona e democratiza o capital, introjetando-o em cada poro da vida humana.

Por trás do ódio mortal que trabalhadores e burgueses nutrem um pelo outro, há uma aliança secreta entre eles. E esta aliança é o trabalho, o culto ao trabalho que dignifica o homem. Este culto ao trabalho oculta a adoração ao valor/dinheiro. Os operários não questionam o valor, que se deva trabalhar em troca de salário e poder de consumo (não questionam sua condição de mercadoria). Pedem apenas que este salário seja maior (sua sua mercadoria valha mais), que a burguesia não seja tão avara e reparta um pouco de seu lucro.

Esta aliança secreta entre trabalhadores e burguesia, unidos pelo amor que ambos nutrem pelo trabalho/valor, o prazer e o orgulho que eles sentem (ou dizem sentir) em submeter seus corpos e mentes ao trabalho exaustivo do dia a dia, esta aliança em torno da autoflagelação que significa o trabalho revela, de fato, o que são: escravos.

Mas são um tipo de escravos muito especial, bem diferente dos prisioneiros da antiguidade e dos negros americanos. Estes foram escravos forçados, involuntários. O burguês e o operário trabalham duro de bom grado. Dizem até que trabalhando imitam Deus: mais que digno, o trabalho é sagrado. Se o trabalho é sagrado e se este é a substância do valor, então, por dedução, o novo deus da modernidade é o Capital. E e burguês e o trabalhador são seus escravos voluntários.

É contra esse gozo masoquista, contra a escravidão introjetada pelo capital na psique de cada um, que o espírito do novo nobre se levanta. E ele se orgulha de amar o ócio na mesma medida em que sente nojo pelo amor ao trabalho, nojo da sacralização do trabalho que une o burguês e o operário, escravos voluntários do capital. O nobre despreza o escravo.

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