quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Do moralismo e das pessoas de bem

Todo moralismo é uma farsa, sem exceção. Na política, na religião, nos costumes, nas artes ou nos negócios, o moralismo é sempre um disfarce para o exercício do ódio e do poder tirânico sobre as pessoas. Quem faz discurso moralista, ou é pilantra ou idiota útil, também (auto)denominado "pessoa de bem".

A partir da terceira revolução industrial, o trabalho humano está se tornando obsoleto como produtor de valor. Cada vez mais pessoas tendem a se tornar supérfluas para o mercado e são empurradas para o desemprego e o subemprego. Quem ainda se mantém no mundo do trabalho, tem medo de se tornar supérfluo.

Sem trabalho, as pessoas são excluídas da vida social e empurradas para a miséria. Incapazes de questionarem o capitalismo, cujas coerções sociais foram naturalizadas na psique, as pessoas tendem a se refugiarem no moralismo, em busca de segurança, certezas e bodes expiatórios em que possam descarregar suas frustrações.

O sucesso do moralismo entre as massas é obra do medo e da frustração que, por sua vez, redunda em ressentimento e  ódio. Os imorais, o grupo de pessoas que se desviam da boa moral, passam a ser o alvo do ódio moralista e se tornam culpados pelas desgraças do mundo.

Os evangélicos odeiam gays e macumbeiros, a classe média odeia os pobres e a esquerda, o povo odeia os políticos, os esquerdistas odeiam a banca e as corporações. E o motivo de tanto ódio é sempre o desvio moral do grupo odiado. Gays e macumbeiros são pecadores, os pobres são preguiçosos, a esquerda quer me roubar e dar aos vagabundos, os políticos são ladrões, a banca é gananciosa etc.

Mas a pessoa de bem, seguidora da moral e dos bons costumes, não acredita que seja ódio ou ressentimento o que ela sente pelo outro "imoral". O que o moralista diz sentir, acreditando em sua própria mentira, é indignação para com o desvio ético dos imorais, que tanto prejudicam a ordem social. Os evangélicos, que deveriam amar os pecadores, chegam a inventar para si mesmos que amam os gays (como Deus manda), mas abominam as práticas homossexuais, por serem demoníacas. Convenientemente, esta autoilusão "se esquece" que o homossexualismo constitui a singularidade irredutível (a alma) da pessoa que é gay e que não há como abominar o homossexualismo sem abominar o homossexual.

A necessidade de moralismo das massas se torna um terreno fértil para o surgimento de uma espécie muito particular de vigarista, o líder moral. Nossa época é pródiga no surgimento de líderes morais, prontos a oferecer um bom código moral ao rebanho capitalista amedontrado, frustrado e ressentido, ávido por encontrar um imoral que sirva de bode expiatório para descarregar seu ódio.

A corrupção (da alma, do corpo, dos negócios, do estado etc) se torna uma obsessão em nossa sociedade, onde o discurso moralista se tornou hegemônico. Para a mente moralista, a corrupção é a fonte de todos os males e deve ser combatida com rigor, assim como os corruptos, que devem ser punidos para se purgarem dela e servirem de exemplo aos que se sintam tentados a se deixarem corromper.  A moral deve ser atingida pelo convencimento, mas também pela coerção.

A coerção, "necessária" para o estabelecimento da boa moral, é a brecha para a proliferação das tiranias e protofascismos, pragas que infestam, por todo o globo, o tecido social do capitalismo tardio. O mundo atual se tornou o paraíso para o líder moral, o vigarista que se aproveita dos medos e ressentimentos do povo para impor ao rebanho atordoado sua tirania moralista, que não hesita em punir, com requintes de sadismo, o imoral que insiste em não se comportar como uma pessoa de bem.

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