quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cães de rua



Foi mistério e segredo      E muito mais
Foi divino brinquedo      E muito mais
Se amar como    Dois animais...
(Alceu Valença)

Eu te amo
Em meio ao turbilhão de vozes ao bilhão de bilhões de estrelas das galáxias no meio da rua encardida
Ela diz te amo com o olhar
Enquanto carros escarram carbono
Dois corpos de carbono se abandonam a um copo de desejo
Dois corpos fundidos no corpo de cimento e eletricidade desta aldeia desejam se fundir por um
Instante breve de magia atravessando o ar entre os lábios ouvidos esquecidos do barulho dos carros e vozes da zoeira sem fim desta rua da fumaça dos cigarros dos escarros transeuntes sons de passos e pássaros e silêncios de fios carregando sinais e
Sinas que se cruzam numa esquina junto a dois mendigos e um doido fedido o perfume dela jasmim carmim alfazema penetrante até a medula
Ela medusa paralisante
Ela dá medo
E amor
E todo o seu corpo em meio à rua que corre escorre movimento de gentes formigas buzinas anúncios lojas e camelôs
Dois corpos se abandonam a si
Cães farejando odores de si felinos de olhares selvagens pássaros prontos para o voo no abismo das alturas tensionados de energia como fios emaranhados que atravessam ruas e ruas
Dois corpos quase mortos um corpo é sempre quase um morto querendo viver dois corpos querendo um instante de vida em meio ao turbilhão de vida e morte alegria e miséria trabalho e loucura estresses e catatonias inundando as ruas de carbono
Um mar de carbono e cimento um mar indiferente roça os poros e vai até o último limiar de lama da alma um mar que os faz desejar um mar que os são e lhes tira a calma sanidade um ar tóxico de cidade sem o qual eles não vivem
Não amam
Não morrem
Os dois se amam no mAr sujo e lamacento desta rua sublime podre penetrando os cômodos mais íntimos da casa
O amor é sujo e desamparado o amor é precário rio intermitente escorrendo desejos e quedas vapores quentes e troncos podres pássaros e peixes feixes de odores enfeitiçando felinos e vampiros bebendo suas margens e cães e lobos sedentos do sangue das veias em meio a florestas de prédios e antenas e lojas o amor sobe nas faces e enrubesce a tv e os móveis e automóveis o amor é puro
Carbono
Eu também te